Uma história

A Menina do Pastoril

Sumiu tão misteriosamente como apareceu. Os três anos vividos na cidadezinha foram de uma felicidade fora do comum. De fazer inveja a qualquer garota de sua época. No entusiasmo dos seus quinze anos, passeou, dançou e até sonhou com um príncipe encantado. Divertiu-se quanto pôde, aproveitando os doces momentos que a vida lhe oferecia.

Destacou-se, no pastoril, por sua voz maviosa e pela liderança da ala do cordão encarnado. Foi convidada a se apresentar no palco do Cine Coronel Fausto, naquele tempo uma atração para Areia Branca, assim como, alguns anos depois, o Canecão seria para o Rio de Janeiro, guardadas as devidas proporções. Que mal faz uma pitadinha de exagero?  No Recife, a Rádio Jornal do Commércio bradava: “Pernambuco falando para o mundo”. Se a emissora da Veneza Brasileira podia puxar um pouquinho de brasa para a sua sardinha, por que negar esse direito à nossa Salinésia “prafrentex”?  Olhe aí, menino, eu outra vez pegando carona no palavreado do Jessier Quirino!

O certo é que a garota levou um chá de sumiço. Poder-se-ia até comparar com o desaparecimento da Conceição, aquela que desceu do morro e ficou famosa na voz de Cauby Peixoto. Assim, a menina do pastoril nunca mais foi vista na Rua da Frente, na Rua do Meio ou na Rua de Trás. Ninguém mais a viu na pracinha da igreja nem nas alegres matinês do cinema de Artur Paula. E banhando-se nas ondas da praia de Upanema? Nada! Nenhuma pessoa dava conta do seu paradeiro.

Antonio Vale, decada 1950, Tirol, Areia Branca. In costabrancanews.blogspot.com

Mesmo depois de cinquenta e cinco anos que deixei  Areia Branca, sempre faço uma visitinha à terra querida. Das ultimas vezes, em conversa com amigos, o nome daquela guria veio à baila. Todos ignoravam o destino dela. Finalmente num bate-papo, pela internet, com o meu conterrâneo Antônio Miranda, o e-mail dela me foi informado. Trocamos correspondências. Contou-me passagens interessantes de sua vida. Mora atualmente nos Estados Unidos, feliz e de bem com a vida, conhece alguns países do Primeiro Mundo.

Quando saiu de Areia Branca foi morar no Rio de Janeiro. Pensava em continuar os estudos. Não deu. Empregou-se na Petronosso, firma estabelecida no Castelo, centro do Rio. Caprichosa e muito viva, logo prosperou na empresa. Pouco tempo depois se casou.  Engravida do primeiro filho e tem que deixar o emprego. Não pensou duas vezes para ensinar o serviço à esposa do doutor Geraldo, gerente da  companhia. Era a compensação ao casal que muito lhe ajudou. Prometeu que os avisaria quando ganhasse bebê. Um belo dia, ao Hospital Pro-Mater, chega o doutor Geraldo e conta à parturiente a viagem que ele fizera a Areia branca.

“Surpreendi-me, jamais havia mencionado o nome da minha cidade a ele”.

Geraldo era advogado e voltava de uma auditoria que fizera no Instituto de Aposentadoria  e Pensão dos Marítimos. Como naquele tempo não havia hotel na Salinésia, arranjaram-lhe um apartamento na Maternidade, onde o auditor se acomodou. Adorava conversar com os pacientes. Um senhor já idoso, ao saber o que o ”doutor” morava no Rio, pediu a ele que visse alguns retratos guardados numa caixa de sapato.  Eram fotos  de familiares seus residentes na Cidade Maravilhosa. Geraldo se espanta ao prestar bem atenção a uma foto e exclama:  “Eu conheço essa moça. É dona Maria, trabalhamos juntos numa mesma empresa”.

O velho que estava internado era Pedro de Zefa. Zefa e Pedro moraram por muito tempo na Rua do Meio , em Areia Branca. E dona Maria da foto não era outra senão Dodora de Pedro de Zefa, assim carinhosamente conhecida em Areia Branca, e a quem denominei de “a menina do pastoril”.

p. 23/25 – Caminhos de Recordações, Francisco  Rodrigues da Costa;  Sarau de Letras – 2010