A candidatura de Dr. Vulpiano em Natal

A candidatura do Dr. Vulpiano em Natal

Cláudio de Oliveira [ Jornalista e cartunista ]

Contavam os antigos militantes que o Partido Comunista Brasileiro preparava a candidatura do médico Vulpiano Cavalcanti à Prefeitura de Natal. Era o ano de 1964 e discutia-se a sucessão do então prefeito Djalma Maranhão. Nascido no Ceará a 15 de março de 1911, dr. Vulpiano radicou-se em Natal nos anos 40, depois de concluir o curso de medicina no Rio de Janeiro. Como se sabe, o golpe de Estado de 1964 interrompeu a processo democrático. O dr. Vulpiano foi uma de suas primeiras vítimas. Preso, teve seus direitos políticos suspensos.

Aquela não teria sido a primeira candidatura frustrada do dr. Vulpiano. Em fins dos anos 1950, o PCB debatia lançar seu nome a deputado estadual. Ocorreu que o professor Luiz Maranhão, também dirigente partidário, fora chamado para uma conversa com uma autoridade religiosa. O clérigo teria sido direto: se o candidato fosse ele, Luiz Maranhão, os religiosos não seriam a favor, mas também não fariam campanha contra. Se o candidato fosse o dr. Vulpiano, sua congregação se oporia. O Comitê Estadual reuniu-se e decidiu então lançar Luiz Maranhão a deputado, afinal eleito em 1958.

Talvez o dr. Vulpiano estivesse identificado com os tempos duros do PCB, quando o partido adotara posições anti-clericais e de extrema-esquerda. Enquanto Luiz Maranhão representaria a nova política, favorável a um diálogo com amplos setores da sociedade. Já em 1955, o PCB apoiara a candidatura de Juscelino Kubystchek, do PSD, à Presidência da República. Em março de 1958, manifestava-se a favor da democracia representativa e de um caminho pacífico das transformações sociais. Todavia, quem o conhecia de perto, sabia que as posições políticas do dr. Vulpiano eram as mesmas do seu correligionário professor. Ambos formavam internamente no PCB a ala dos renovadores.

Naqueles dias agitados de 1964, Djalma Maranhão, Luiz Maranhão e Vulpiano Cavalcanti se colocavam contra o processo de radicalização política em curso no país. Veio o golpe e como é sabido Djalma Maranhão foi deposto da Prefeitura e preso juntamente com os principais líderes esquerdistas da cidade. Inicialmente ficaram detidos no berçário do Hospital da Polícia Militar. Um  dos últimos a chegar, o dr.Vulpiano disparou com o seu habitual bom  humor:

- Viram no que deu a doença infantil do comunismo?

Vulpiano Cavalcanti assistira estudante no Rio de Janeiro a derrota dos rebeldes de 1935 da Aliança Nacional Libertadora, de cujo lançamento participou no Teatro João Caetano. Assim, refutou a tese da luta armada contra o regime de 1964. Optou pela chamada resistência democrática, política aprovada no congresso do PCB em 1967.

Obrigado à clandestinidade, Luiz Maranhão transfere-se para São Paulo, onde fará parte da comissão do PCB responsável pelas articulações na Frente Ampla. A proposta, reunindo João Goulart, Juscelino Kubystchek e Carlos Lacerda, além de Ulyssses Guimarães, Tancredo Neves, Franco Montoro, Itamar Franco, Aluízio Alves e outros, uniu a oposição ao autoritarismo.

 

Tal articulação será a base para a fundação do MDB, que imporá em 1974 e 1978 duas fortes derrotas eleitorais ao regime. Ante a derrota nas urnas e a pressão da opinião pública, o regime se vê forçado à abertura. A Anistia é aprovada, os exilados retornam ao país, os presos políticos são libertados e o dr. Vulpiano tem os seus direitos políticos de volta. Mas ele ainda não terá sua cidadania plenamente restituída. Seu PCB continuará proibido.       

Numa tarde ensolarada, visitei o dr. Vulpiano em sua casa em Petrópolis. Contou-me do telefonema que recebera de Luiz Carlos Prestes convidando-o a abrir uma dissidência no PCB. O legendário “Cavaleiro da Esperança” voltara do exílio e acreditava que era hora de fundar uma frente unicamente de esquerda, dela excluindo os setores democráticos-liberais. O dr.Vulpiano discordou de Prestes e mostrou-se favorável à união de todos os setores da oposição como melhor caminho para superar o regime. E assim, emprestará seu apoio à campanha de Tancredo Neves, do PMDB, cuja vitória enterrou duas décadas de autoritarismo.

Morreu em novembro de 1988, vítima de pneumonia, quando visitava suas irmãs em Fortaleza.  Mas viveu o tempo suficiente para ver seu partido legalizado em 1985 e promulgada a nova Constituição, na qual foram estabelecidas não só as liberdades políticas, como também garantias sociais que melhoraram a vida de milhões de brasileiros. Confirmou-se o seu prognóstico segundo o qual a liberdade era a condição necessária para a construção de um Brasil assentado nos valores da igualdade e da fraternidade.

 

Texto gentilmente cedido pelo Professor Izan Lucena

 

HOMENAGEM A UM CAMARADA

                       

 

Vulpiano Cavalcanti

 

(1911 – 1988)

 

 

Ele (Jesus Cristo) foi o primeiro comunista. Repartiu o pão, repartiu os peixes e transformou a água em vinho.

Fidel Castro, Líder comunista cubano

Recebo um e-mail do meu amigo jornalista e cartunista brasileiro Cláudio Oliveira, divulgando uma matéria publicada hoje no jornal Tribuna do Norte, em homenagem ao médico brasileiro Vulpiano Cavalcanti, “o mais conhecido comunista do Rio Grande do Norte”, para quem, “durante um breve tempo, em fins dos anos 1980”, Cláudio foi “um dos responsáveis por redigir notas e documentos do PCB-RN. E também alguns manifestos assinados pelo dr. Vulpiano”. Segundo ele, “discutíamos os termos dos textos. Como maçon, ele me pedia sempre para concluir citando o lema liberdade, igualdade e fraternidade. Atendi mais uma vez ao seu pedido”.

Para quem desejar ler a matéria, Cláudio sugere o site abaixo:

http://tribunadonorte.com.br/noticia/a-candidatura-do-dr-vulpiano-em-natal/204708

Nathalie Bernardo da Câmara