Dr. Vulpiano por Maria Conceição Pinto de Gois, in A Aposta …

…Um possante alto-falante emitia sons agudos e estridentes, dia e noite. Todos passaram por essa cela, mas o preso Vulpiano Cavalcanti, cirurgião agraciado pela Academia de Ciências por desenvolver uma técnica de sutura em cirurgias de apendicite, e que teve os dedos quebrados para que nunca mais pudesse exercer a profissão, passou 135 dias. Saía soemnte para interrogatórios seguidos de espancamentos.

Devido à sua posição social e ao prestígio que obtivera nas cidades de Mossoró, Macau e Areia Branca, intouzindo métodos e técnicas novas na medicina, como a cesariana, numa região onde as mulheres morriam como moscas em conseguência de partos desassistidos, Vulpiano Cavalcanti de Araújo, por ser um dirigente comunista, causava muita inquietação às autoridades civis, eclesiásticas e militares.

A chegar em Areia Branca, foi brindado com um sermão do pároco, que alertou os católicos para a chegada do enviado da “Rússia”. Até um aperto de mão poderia causar danos. Mas o pároco gostava de jogar xadrez. Na cidade, só o médico recém-chegado sabia jogar.

As mulheres, mais que os homens, gostavam de ver, nos finais de tarde, o padre e o comunista na calçada da igreja, com um tabuleiro de xadrez em um tamborete, num jogos em fim. Quando a notícia chegou aos ouvidos do bispo de Mossoró, acabou o xadrez de fim de tarde. O pároco, amargurado, comunicou ao médico o ocorrido. Que fazer? Obedeça ao seu bispo.

Arrastado do consultório, onde atendia uma cliente, que ficou na mesa ginecológica com uma crise histérica, Vulpiano Cavalcanti não sabia que estava entrando no inferno, no qual se tinha transformado a Base Aérea de Natal. Ouviu dos oficiais que devia escrever a Café Filho, vice-presidente da República, ou mesmo ao presidente Getúlio Vargas, sobre o que estava acontecendo ali. Caso eles fossem até lá, serão colocados nas latrinas para sentirem o cheiro de m… de vocês.

Páginas 92 e 93 da obra: A aposta de Luiz Ignácio Maranhão Filho – cristãos e comunistas na construção da utopia da Professora Maria Conceição Pinto de Góes, Editora UFRJ/Revan, 1999.

O médico Vulpiano Cavalcanti reabriu seu consultório médico na Avenida Rio Branco. Começou a praticar chocHé para readquirir a agilidade dos dedos das mãos [era cirurgião], bastante prejudicadas pelas constantes pancadas nas sessões de tortura. p 104