Bento Ventura e Luiz Maranhão em Macau

Luiz Maranhão foi reconduzido ao cargo de professor do Ateneu por sentença judicial, e voltou ao jornalismo como redator-chefe do Diário de Natal. Estava com 32 anos. Mergulhou no trabalho de reconstrução, em Natal, do Partido Comunista, que se preparava para o IV Congresso. Um árduo trabalho, embora novos quadros estivessem em atividade. A circulação do jornal a Voz Operária estava sendo feita pelo operário militante Bento Ventura de Moura, recrutado em Macau, onde trabalhava e exercia liderança no Sindicato dos Trabalhadores das Salinas. Bento revela que, em 1952, quando fazia militância no sindicato. Nessa reunião se discutiria uma tática para as lutas sindicais. Aceitou o convite e se sentiu muito à vontade entre aqueles homens com os quais tinha muita afinidade de pensamentos e problemas comuns. Mas o que mais o impressionou foi a simplicidade do prof. Luiz Maranhão e a atenção que dispensava ao ouvir os companheiros. A partir daquele momento sentiu que tinha encontrado um rumo e um interlocutor.

Eu era sozinho, não tive infância, nasci no interior do sertão, área rural, meus pais não tinham cultura. Fomos filhos da terra. Comecei a trabalhar no pesado, na agricultura, com sete ou oito anos de idade. Com quinze anos, cheio de revolta pela vida que levávamos, enfrentando um ano de inverno e três de  seca, vendo tudo que era nosso se acabar e a gente começar tudo de novo, eu abandonei a casa de meus pais e procurei outros ares. Mas continuei na vida de trabalhador avulso, de fazenda em fazenda, de sítio em sítio. Não tive atenuantes, como de procurar a cidade desenvolvida, ou mesmo a capital para começar a mudar de vida. Fiquei na agricultura até 1944. Tinha vinte e um anos e resolvi procurar a indústria para trabalhar. Fui para Macau com a roupa do corpo e a pá trabalhar na salina. Lá encontrei Luiz. Não fui preso. Eu não tinha importância, não era conhecido. Mas saí de Macau como trabalhador de um circo que se apresentava na cidade. Ajudava na montagem das lonas e cheguei até a trabalhar como ator. Em Natal, fiz vários cursos de capacitação organizados pelo Partido Comunista. Era um professor do Rio, não perguntávamos o nome. Dez dias sem deixar a casa onde se realizava o curso, por medida de segurança. Estudei o marxismo e a legislação trabalhista. Tudo com muito esforço. Aprendi a ler e escrever quase sozinho, com um garrancho na terra, no chão. Fui aprender mesmo na Casa de Detenção, quando estava preso. Da cadeia, escrevia a um primo, que devolvia as cartas com as correções.

A Bento também cabia a distribuição da Voz Operária para Campina Grande, João Pessoa e Ceará, para onde se deslocava em um “velho DKW” de sua propriedade e a serviço do Partido, “tudo muito precário”. Ele recorda que costumava encontrar-se com Luiz Maranhão, Vulpiano Cavalcanti e os dirigentes José Alves [sapateiro] e José paulo [funcionário da febre amarela, que era uma campanha nacional visando a erradicação da doença] em lugares distantes, às vezes no Forte dos Reis Magos, “que nesse tempo não tinha transporte coletivo para lá”, às vezes embaixo de árvores. Se era noite, acendiam velas e discutiam as questões políticas.

Segundo Bento, “era um tmpode muita discriminação dentro do Partido com quem não fosse proletário. Só era da direção quem fosse proletário. Luiz tinha toda a nossa confiança, mas não podeia ser da direção, não era proletário”. P.105/106

 Da obra: A aposta de Luiz Ignácio Maranhão Filho – cristãos e comunistas na construção da utopia., Professora Maria Conceição Pinto de Góes, Editora UFRJ/Revan, 1999.