Retalhos de Macau, por Nair Damasceno

Nós do baú de Macau sentimos uma felicidade imensa quando alguém se propõe a “escavaquear” suas lembranças e escrevê-las para que publiquemos.  O baú é como um emaranhado de fios, quando alguém puxa uma ponta aparecem outras e assim vamos construindo a história dos macauenses, nativos ou adotados, como a poeta Nair Damasceno  que viveu parte da sua adolescência em Macau e agora compartilha suas recordações, com escrita poética e carregada de emoção.                                                                               

 1 – A Chegada

 

Rua da Frente 1960 E Valle

Estávamos em casa da minha avó vindos de Fortaleza quando meu pai avisou que viajaríamos a uma hora da tarde para Macau (meu pai fora transferido para servir nessa cidade).  Ao meio dia fomos para a Praça Gentil Ferreira e lá nos aguardava um caminhão com vários bancos enfileirados na boléia com os seguintes dizeres: MIXTO-MACAU, e lá fomos eu, meu pai, minha irmã no colo de minha mãe e, meus dois irmãos acomodados em um banco apertado e desconfortável.Eu que até então só viajara de navio ao som do Cisne Branco achei aquela viagem horrível; chovia e aqui acolá tínhamos que descer e caminhar a pé para que o mixto pudesse passar sem atolar no barro. As duas da madrugada o motorista avisou que estávamos chegando à Rua da Frente; levantei a cabeça e não consegui ver absolutamente nada, um verdadeiro breu, como dizia minha avó. O mixto nos deixou em uma casa da Marinha sem energia elétrica; exausta adormeci imediatamente. No dia seguinte corri para a janela e vi uma paisagem desoladora: Barcos velhos encalhados em meio a uma lama escura, algumas pontes de madeira que não levavam a lugar nenhum  e um rio cheio de ilhotas dividido em três canais, na outra margem uma ilha deserta. Meu pai falou que a casa não tinha água encanada e a energia elétrica se acabava às dez da noite.  

 

Rio Açu, 1970, Macau-RN

À tardinha a paisagem se transformou: os canais se transformaram em um caudaloso rio, barcaças amarelas e rebocadores deslizavam sobre as águas, as “pontes” se transformaram em ancoradouros de barcos que traziam água de dois lugares: Barreiras e Diogo Lopes (décadas depois conheci esses lugares  que eu considerei  paradisíacos).

 Corria o ano de 1961.

 

2 – Grupo Escolar Duque de Caxias

 

Grupo Escolar Duque de Caxias, 1950, Macau-RN

 

No dia seguinte minha mãe foi comigo ao Grupo Escolar Duque de Caxias que ficava próximo a minha casa. A sala de aula era cheia de carteiras com dois lugares onde se acomodavam três alunos. A professora, dona Judith acomodou-me entre duas alunas muito boazinhas, Miriam e Vilma Pinheiro. Vilma tinha um dom de liderança e eu a admirava porque ela era presidente da Cruzada Infantil, tinha uma voz rouca e forte quando cantava o hino da Cruzada:

 - “Dos pampas, serranias, das praias ao sertão, nós havemos de ouvir o Brasil repetir o seu nome cristão!”

Sua jugular só faltava saltar e eu a admirava ainda mais!

 

Praça da Conceição, Macau-RN, Seu Santos

 

Ela morava numa casa em frente à praça e sua mãe era uma senhora de face meiga, alegre e muito simpática.

A turma era muito grande, dona Judith era uma professora exigente, mas adorável e muito comprometida com a missão de “ser professora”. De uma sensibilidade contagiante, chorava quando ia apresentar a relação de alunos reprovados; benditas lágrimas.

 Lembro de alguns alunos da classe:

Luiz Antônio que tinha olhos graúdos (anos depois o encontrei quando estudava com meu irmão Cristovam, ambos iam fazer vestibular para engenharia), Arimar, Tiquinha, Manuel Borja, Marlene, Saulo, Francisco Seixas e sua irmã. Tinha uma aluna que costumava me chamar para rezar para São João Bosco antes das provas (tinha um quadro com a foto desse santo na sala vizinha).

 

3 – A Cidade

A cidade quase não tinha árvores, sua única beleza era o rio Piranhas quando estava cheio; depois descobri o pôr-do-sol, um dos mais belos que já vi.

 A energia elétrica quase não iluminava a rua, tão fraca que era; nós éramos privilegiados porque a Matarazzo fornecia energia às casas da Marinha até as 22 horas.

 

Rampa de Seu Modesto, 1960, barcos aguadeiros

 

As pessoas faziam fila para comprar água e para carregar usavam o “galão” ( que nada tinha de galão). As casas da Marinha tinham uma cisterna relativamente grande e quando chovia a cisterna sangrava. A chuva era recebida com festa: as bicas das casas ficavam cheias de depósitos para aparar água da chuva e inúmeras pessoas tomavam banho de chuva, homens, mulheres, jovens, crianças na maior gritaria e eu entre eles: Chuva escassa cheia de graça.

Ás vezes o vento ficava irado e soprava forte levantando uma poeira de barro vermelho em redemoinho, depois acalmava e tudo voltava à normalidade.

A lua cheia transformava a paisagem; o rio atingia seu nível mais alto em solidariedade a lua e suas águas pareciam gotas de cristais.

 

4 – As Festas

A cidade tinha duas grandes festas que mobilizava toda a população, Nossa Senhora dos Navegantes e Nossa Senhora da Conceição, ambas com novenas e banda de música tocando. Os festejos eram semelhantes com a diferença que na festa de NS da Conceição a programação era terrestre e de Nossa Senhora dos Navegantes tinha procissão por terra e pelo rio. A santa ia em um rebocador todo enfeitando com fitas, faixas e bandeirinhas seguida por barcaças grandes da Companhia Comércio e Matarazzo além de barcos menores.  Na procissão por terra faziam parte do “cordão” as bandeirantes, as meninas da Cruzada, alunos de ginásio ostentando suas fardas de gala e o público em geral tudo cuidadosamente organizado com destaque para Monsenhor Honório e logo em seguida padre Zé Luiz e padre Penha.

 

Procissão N.S. dos Navegantes, 1960, Macau-RN

 

 Chique mesmo eram os escoteiros, com suas fardas impecáveis: tinha os Lobinhos (anos depois reencontrei Nelson, um antigo lobinho bem pequenino na época), os escoteiros do mar (esses eram charmosíssimos) e os da Terra, todos sob a coordenação do padre  Penha. Eles tinham um pequeno grupo musical e nas festas do Ginásio eles se apresentavam catando:

-“Acorda escoteiro, acorda que o galo já cantou…”

 

5 – O Ginásio

 

Alunos do Colégio N.S. da Conceição, hoje CEIMH, déc. 1960, Seu Santos.

 

O trote do ginásio foi um dos acontecimentos mais desagradáveis para mim.  O ginásio estava sendo pintado e havia um quartinho cheio de latas com  cal. As alunas veteranas, em sua ingenuidade atiraram cal nas novatas; a cal em contato com a pele parecia brasa e eu e algumas colegas tivemos algumas queimaduras cujas cicatrizes ficaram como lembrança. Padres Penha e Zé Luiz ficaram muito preocupados com o ocorrido e a partir desse ano esse tipo de trote foi proibido.

 Lembro de algumas alunas com quem conversava: Jandir, Gracinha Barbalho, Zilma e sua irmã Lourdinha, Concita, Vera (uma menina louríssima e muito tímida) e sua irmã Norma, Damiana, Severina, Francisca, Auxiliadora (Dodô) e Socorro (eram irmãs), Luzinha, Rosarinho, Zuleide. Entre os alunos eu era amiga de Toinho Dantas.

Tínhamos uma farda de gala e nos eventos importantes os alunos do Ginásio se faziam presentes. Durante a Semana Santa as missas eram cantadas em latim pelo famoso “Canto Orfeão” do Ginásio; era motivo de orgulho saber cantar em latim as orações em missa solene. A igreja era muito bonita e ficava completamente cheia nos horários das missas.

Certa vez uma amiga do ginásio me apresentou a um jovem muito a frente de mim e de seu tempo; conversamos poucas vezes e anos depois o encontrei nos movimentos sindicais; não falei que já nos conhecíamos, ele falava com muita segurança e domínio e mais uma vez estava muito a frente de mim (a ditadura ainda era presente, mas o pais caminhava em busca de novos rumos). Recentemente um amigo me presenteou com um livro desse jovem: A Torre Azul do escritor e poeta Horácio Paiva.

 

 

6 – O Homem Mau

 

Sede do Partido Comunista Brasileiro em Macau , 1986

 

 

6 – O Homem Mau

 

As amigas de minha idade e suas mães falavam em um homem mal, O Comunista. Diziam ser um homem carrancudo, malvado, que não tinha religião nem ia a igreja. Usava óculos escuros e usava camisa de mangas compridas, sempre muito elegante carregando consigo uma pasta e teciam mil hipóteses sobre o conteúdo daquela pasta; eu também não simpatizava com esse homem comunista e mau.

 

Tinha um senhor muito simpático e agradável que costumava conversar com meu pai à noite. Ele era bastante falante e envolvido com os problemas trabalhistas dos operários que trabalhavam nas salinas. Criticava os dirigentes das empresas salineiras e fazia duras críticas ao titular da delegacia do trabalho no RN; minha mãe ficava apreensiva, esse titular era irmão dela . Eu gostava de vê-lo conversar e ouvir como defendia a classe salineira, seus problemas sociais e trabalhistas.

 

Certo dia ao sair do Ginásio com uma colega passamos por ele e eu o cumprimentei. Ela empalideceu e me falou que aquele homem era o terrível comunista que todos temiam.

 

Durante a ditadura ele foi preso, amargou alguns dissabores e depois de solto continuou a visitar meu pai em Natal. Nessa época eu fazia faculdade e admirava a coragem do meu pai que nunca virou as costas para aquele comunista que eu também admirava por sua segurança e idealismo: Bento Ventura.

 

 

7 – O Lazer

Inicialmente tinha um pequeno cinema que passava alguns seriados; depois foi inaugurado um cinema novo onde assisti alguns bons filmes; o cinema lotava e as pessoas costumavam levar cadeiras para sentar. Minhas amigas comentavam sobre  dois clubes onde  as pessoas dançavam em um salão pouco iluminado.

 

Salinas de Macau-RN, dec. 1950, E. Valle

 

 

O sol era escaldante. À tardinha eu costumava passear na entrada da cidade que tinha belíssimas pirâmides de sal as margens da estrada que dava acesso à Rua da Frente. Quando estive nas Cataratas do Iguaçu deduzi que as cataratas do Iguaçu e as salinas de Macau eram irmãs gêmeas. A entrada da cidade tinha um moinho velho e inúmeros tanques com água de grau; as nuances de lilás pareciam ser pedaços de arco-íris.

A missa das sete horas da noite aos domingos era um verdadeiro evento. Padre Zé Luiz com voz forte e firme fazia sermões mais eloqüentes do que padre Penha. A igreja estava sempre cheia e quando a missa terminava os jovens iam para a praça atrás da igreja. Monsenhor Honório sentava em um batente alto quase em frente à casa do estudante. Os rapazes circulavam em um sentido e as moças em sentido contrário e aqui acolá saia um toque de mão. Todas as minhas amigas tinham uma paixão e trocávamos confidências. Algumas casaram com seus apaixonados, outras amargaram a primeira desilusão amorosa. Era o ano de 1963 e eu já rabiscava poesias.

 

8 – As Campanhas Políticas

Campanha eleitoral em Macau-RN sob iluminação das piracas. Eram os sessenta.

As campanhas políticas se convertiam numa verdadeira festa: nas ruas centrais era quase unânime a presença de bandeiras verdes tremulando no alto das casas e mais para a periferia as casas ostentavam bandeiras vermelhas. Meu pai gostava de assistir os oradores fazerem uso da palavra em ambos os lados, discretamente assistia o seu Horácio falar, tecendo depois comentários com seu Bento Ventura. As passeatas mobilizavam toda a cidade. As ruas eram escuras, algumas vezes de barro ou areia e o cortejo se deslocava cantando, feliz, algumas vezes na mais completa escuridão. As passeatas do lado verde tinham apresentação de cantores locais; tinha um rapaz de voz encorpada que tocava violão e cantava músicas de Nelson Gonçalves acompanhado por todos os presentes, contritos e emocionados (seu nome era Ivan), era a maior expressão artística da cidade. Enquanto a passeata se deslocava a população cantava paródias inteligentes, espirituosas e cheias de criatividade. Certa vez Chiquinha da Sanfona (depois foi para o Rio de Janeiro e mudou o nome para Chiquinha do Acordeão) e Zito Borborema, a convite do lado vermelho, foram se apresentar próximo ao mercado e foram fortemente vaiados além das pedras que foram atiradas obrigando-os a interromperem a apresentação… Que feio! O lado verde sempre vencia as eleições; hoje eu me pergunto que se tivesse acontecido  o contrário as coisas não estariam diferentes…

 

9- Os Homens de Macau

 

Foto Getulio Moura 1981 Sede do Sindicato dos Trabalhadores na Extracao do Sal de Macau arquivo Getulio Moura

Certo domingo, quando voltávamos de nosso passeio costumeiro, à tardinha, eu e duas amigas ouvimos um batuque e iniciamos uma busca orientadas pelo vento; identificamos que ele vinha de um local que tinha um Cruzeiro e fomos até lá. O batuque era em uma casa de portas estreitas e nós entramos sem chamar atenção; dentro, só homens, homens fortes de camisa aberta ao peito deixando a mostra os peitorais desenvolvidos e sob as mangas das camisas bíceps e tríceps fortes e rijos, homens de fazer inveja a qualquer fisiculturista, pois seus músculos fortes e rijos não apresentavam  deformações.

 

Em um canto da sala um homem no pandeiro e alguns com instrumentos de percussão. Homens em círculo batiam palmas e cantavam enquanto outros dançavam fazendo barulho com os pós como se fosse uma espécie de sapateado. A sala fazia um calor terrível, o suor caia de suas testas e escorria pelo resto do rosto; alguns dançavam com os olhos esbugalhados enquanto outros sorriam. Aqui acolá eles eram substituídos pelos que batiam palmas; encontrei um colega dançando feliz em meio à roda. O calor e o cheiro forte de suor e cachaça impregnavam o ambiente, mas não tinha ninguém bêbado

 

Quando saímos encontrei uma colega do Ginásio com sua mãe e a sra. me falou que aquilo era um ambiente muito perigoso para meninas, então decidimos guardar segredo. Dias depois ouvi meu pai falar que o nome daquela dança era COCO, dançada por homens, uma cultura popular característica da região salineira. Naquele momento eu  entendi  que aqueles homens eram os verdadeiros homens de Macau.

 

 

10- Epílogo

 

Trapiches, Rio Assu, Macau-RN, 2009, Getulio Moura

 

No final de 1963 meu pai foi transferido para outro local. Eu mudara e Macau também mudara aos meus olhos. Já não era feia, eu descobrira belezas escondidas, fizera algumas amizades, despertara para a adolescência. Já não era apaixonada por todos os escoteiros, mas pelo primeiro namorado. Continuava com meus passeios entre as pirâmides de sal e admirando o pôr-do-sol, mas com outro sentimento que despertara em minha adolescência e que eu acreditava ser o limite de tudo. Já não “rabiscava” poesias, mas escrevia poesias cheias de sentimentos (algumas delas estão no meu livro Poetando Cantos e Desencantos); achei que minha vida terminaria ali, aos quatorze anos…

 Minha alma chorou quando parti de Macau em uma madrugada fria e triste; olhei para o rio Piranhas e ele estava seco, feio como meu coração…

Descobrir o Baú de Macau foi como despertar um pássaro alado adormecido e dar-lhe asas. Eu não sabia o que fazer com poesias e outros textos que estavam amarelando no meu baú, esses textos precisavam de um ouvido, de uma voz; meio século depois o pássaro voou…