O líder Horácio de Oliveira Neto, por Gilberto Avelino.

Com licença, mas agora não vou falar. No centenário do nascimento de Horácio de Oliveira Neto, meu pai, falará por mim o poeta, o orador Gilberto Avelino. Como? Já não vive? É engano. Mais uma ilusão do tempo inventado. Gilberto vive em seus escritos, no lirismo de sua poesia, na memória dos amigos, na saudade de sua terra, Macau, em Deus. O texto a seguir, de sua autoria, escreveu-o por volta do ano 2000, pouco antes de nos deixar. Uma homenagem póstuma a meu pai, a quem admirava, e a quem acompanhou politicamente, falecido em 1º. de maio de 1999, dia do trabalho. O trabalho, que era um de seus lemas: “Organização e Trabalho”, anunciava sempre o homenageado. Horácio Paiva, poeta [horacio_oliveira@uol.com.br].  Eis o texto:

 

Horácio de Oliveira Neto, 1950, Macau-RN

 

 “De Horácio de Oliveira Neto, sempre se acercaram a saga do trabalho, o poderoso espírito de organização e a mística da honradez. Além de constituir-se, entre nós, no vitorioso homem de comércio, sobressaiu-se na qualidade de político sensível e talentoso. Egresso da condição de Vice-Prefeito, sob o signo de um poder oligárquico, dele desabraçou-se, atendendo ao imperativo da sua consciência democrática. Veio para as hostes da brava resistência da oposição macauense, passando a comandar, com obstinação e coragem, ponderáveis parcelas dos operários da sua terra, especialmente os vinculados à classe marítima, aos quais se devotava com lealdade e inexcedível solidarismo.

                        Pelos méritos, aliás, por todos proclamados, fez-se, com singular legitimidade, candidato ao cargo de Prefeito Constitucional, de Macau, enfrentando vigorosa oligarquia, que dominava o povo há mais de vinte anos. Luta, terrivelmente, desigual, a que se atrelavam os benefícios públicos e a elite burguesa da terra, em favor do candidato situacionista.

                        Horácio, o “Horacinho”, como o povo, carinhosamente, o chamava, não recebia, de ninguém, qualquer ajuda financeira; tudo era custeado às suas expensas, vindos os meios pelo canal do seu suor e do seu sacrifício. Afora o peso eleitoral da cidade, a enfrentar-se, eram agregadas, a esse expressivo contingente de eleitores, as forças subordinadas à oligarquia, que se concentravam no distrito de Pendências. Horácio e o velho Pedro Alves de Medeiros (o seu vice) não resistiram. Perderam a eleição. Perdemos, pois eu era um liderado do comandante Horácio de Oliveira NetoO povo estava atento, e desdobrava-se em vigilância. Não se conformava, sob nenhuma hipótese, com a dominação dos oligarcas. Queria Macau sem dono, sem chefe. Macau encontrando-se com o futuro, com o seu “bom destino”.

                        Conspirava-se, com permanência, pela liberdade na terra do sal. Horácio e os amigos avaliávamos aliança e, depois de bem cerzida, veio a evidência: aliar-se a Venâncio Zacarias, o patriarca dos “salineiros”. E a luta ganhou proporções ou dimensões gigantescas, só terminando com a retumbante e soberana vitória de Venâncio Zacarias de Araújo e Horácio de Oliveira Neto, o nosso “Horacinho”, para Prefeito e Vice-Prefeito da nossa “terra calma e boa”.  É oportuno pôr, em letras acesas, as palavras minhas, no discurso que proferi, ao aproximar-se o encerramento da memorável campanha:   “Parafraseando Bonaparte, eu vos digo  –  do alto desta tribuna, vinte e três anos de oligarquia vos contemplam; e, a partir desta data, jamais voltarão a contemplar-vos.” Sou, ainda, profundamente grato ao demorado aplauso da multidão, em incontida alegria cívica.

                        Macau deve muito a Horácio, e a sua memória, com os seus exemplos, há de ser preservada. Reafirmo: se ele houvesse obtido o mandato, os rumos ou os caminhos da nossa gente seriam outros. Se, algum dia, amigo meu vier a conquistar o poder (executivo) nesta terra, eu lhe pediria  –  com a concordância da família, é o obvio, trasladem-se os restos mortais, para o chão salgado do cemitério “Monsenhor Honório”, do grande líder falecido (1º. de maio de 1999) e sepultado (02 de maio de 1999) em Natal, aos 86 anos de idade, e, a uma bonita rua desta terra, consagre-se o seu nome.     

Gilberto Avelino”.