Dos barbeiros e das barbearias de Macau

 

E. Valle, 1940, Rua Barão do Rio Branco, arq. Leão Neto

As barbearias eram ponto de encontro de muitas pessoas de várias condições sociais, portanto um local democrático onde se conversava de tudo, religião, futebol, politica e principalmente se comentava a vida das pessoas da cidade.

 Nos anos cinquenta e sessenta tivemos várias barbearias e barbeiros famosos em nossa cidade.  Toda barbearia, para ser considerada boa, tinha obrigatoriamente que apresentar uma cadeira de braço declinável, um armário com ferramentas, navalha, maquina de cortar cabelo, pincel para barba, tigela para espuma, pente, agua Velva, pedra ume, amolador de navalha e talco.  As barbearias eram localizadas em pontos estratégicos, onde o fluxo de pedestres era intenso como o mercado publico e os escritórios das empresas.  Todo barbeiro era um homem bem informado. Por sua cadeira passavam as maiores figuras da cidade, padre, políticos, autoridades e também populares.  Era o local propício, não só para se inteirar dos últimos acontecimentos da cidade como também para se aproximar de pessoas cujo acesso era mais difícil. Quantos favores não foram conseguidos através de uma aproximação numa barbearia, um embarque, um emprego público, a soltura de um parente preso ou mesmo uma passagem de navio para tentar a vida no Sudeste maravilha.

 Vários barbeiros marcaram minha infância e juventude em Macau, cada um com seu comportamento e postura diferenciadas. Lembro-me perfeitamente de alguns: Pedrinho Simião, Manoel Tonico, Olímpio, Zé Vieira, Déo, Zome, Chico Cocho e até de Muamba. Pedrinho Simião, um dos mais antigos, tinha sua barbearia na Rua da Frente, defronte ao escritório da CCN; Manoel Tonico também na Rua da Frente; Olímpio, vizinho ao Hotel Santanense, esse tinha uma peculiaridade nominava todos os cortes de cabelo que realizava, por exemplo, os modelos Príncipe Danilo, Buscarré, Caroço de Manga, Jaques Dames, etc.; Zé Vieira ficava próximo ao Mercado do Peixe; Déo com seu irmão Zome,  onde se fazia  a melhor barba, ficava próximo da Casa Dez de Dezembro; Chico Cocho,  misto de barbeiro e escrivão de policia, ficava na Pereira Carneiro e finalmente Muamba, o mais estranho de todos, tinha sua barbearia no morro do cemitério e fazia atendimento a domicilio. Andava sempre numa velha bicicleta com os apetrechos no bagageiro e  é dele a famosa frase: “Que arco, tarco ou que mui”.

Com o surgimento dos cabelereiros e das laminas de barbear modernas, as barbearias tradicionais entraram em decadência, hoje poucas na cidade.

De Getúlio Teixeira [getulioteixeira50@yahoo.com.br] para o baú de Macau