Raibrito e os governantes de “secos e molhados”: a crônica indignada do Professor David de Medeiros Leite

Por David de Medeiros Leite[*]

 

Foto: Clarissa Guerra, 2011, Livros, Arq baú de Macau

Não sei precisar se faz dois ou três anos que Raimundo Soares de Brito está em Natal. Não sei quanto tempo faz que ele, por problemas de saúde, deixou sua casa em Mossoró e passou a morar em nossa capital, mais precisamente no bairro Neópolis. Deixou sua casa e seu arquivo.

Atentemos: trata-se da hemeroteca de Raibrito.

 A discussão sobre o estado e o destino do acervo paira no ar. Vez por outra, emerge em meio à fumaça do saboroso café servido por Rafael Arcanjo, lá na rua Coronel Vicente Sabóia, ou numa discussão vespertina do ‘Sêbado’. Mas, infelizmente, são apenas conversas e comentários esporádicos, que, mesmo carregados de afeto, não possuem o condão de resolver o problema.

 O cenário é, mais ou menos, assim: amigos indignados; Poder Público, silente; e as traças avançando…E o mais complicado de aceitar, é o fato de sabermos que tudo foi fruto de um trabalho diuturno. As anotações, os recortes de jornais, as pacientes conversas e as perquirições mil, tudo ao longo de dias, meses, anos, décadas a fio, foram emoldurando um quadro surrealista que terminou por materializar-se no que conhecemos hoje como Acervo Raibrito.

Sem entrar especificamente no mérito do que proporcionou a situação na qual se encontra hoje o referido acervo, é evidente que existe uma pergunta que não quer calar: Que destino terá?

 A parte que foi digitalizada, resultante do projeto Petrobrás/ICOP, está mais fácil de ser resgatada e novamente disponibilizada ao acesso virtual. No entanto, sabemos que a maior e mais significativa parte do acervo, lá na rua Henry Koster, espera uma solução, antes que tudo seja pó.

No entanto, mesmo diante de tal gravidade, não desejo falar em alternativas. Não elencarei possíveis soluções ou encaminhamentos. Não. A chamada vontade política não existe e não será um texto de minha autoria que mudará o azimute, consciente sou.

E, antes de tudo, chego mesmo a indagar-me: Escrever para quê? Ou, para quem? Não sei. Como catarse? Talvez. Nesta noite natalense, onde quase posso sentir o bolor dos papéis, não me vem à mente outra inspiração.

 Este texto poderia ser considerado uma espécie de “crônica indignada”? Quanto ao “gênero” que, por ventura, possam atribuir a estas mal traçadas, não terei preocupação.

 O que sei, e disso tenho certeza, é que todo norte-rio-grandense que se proponha a entrar na seara da pesquisa historiográfica deveria, antes de qualquer coisa, conhecer a trajetória de Raimundo Soares de Brito. Uma biografia recheada de abnegação, dedicação e, acima de tudo, de superação.

Imaginem vocês como um homem que inicialmente dedicava-se ao comércio e, numa segunda etapa, ao serviço público, despertou o interesse e motivou-se, sobremaneira, a pesquisar a historiografia potiguar. E o fazendo como autodidata, além de enfrentar outras tantas dificuldades materiais, percorria caminhos os mais difíceis possíveis.

 Por tudo isso é que, nesse momento, prefiro mudar o rumo da prosa e comentar um pouco sobre o “vírus da pesquisa” de que fala o próprio Raibrito.

Numa determinada tarde, em meio a uma daquelas intermináveis conversas sobre fatos e personagens mossoroenses, indaguei-lhe sobre o seu despertar e consequente interesse pela pesquisa histórica. Raibrito, com a fleuma que lhe é peculiar, estirou o braço esquerdo e, levando o indicador da mão direita ao antebraço oposto, como que sugerisse a aplicação de uma injeção, respondeu-me didaticamente:

- Tudo acontece quando somos contaminados por um bichinho que costumo chamar de vírus da pesquisa. A partir daí, ninguém consegue parar.

Por mais simples que a metáfora usada possa parecer, naquele momento passei a compreender melhor a dedicação, o esmero, o denodo e a quase obsessão que o pesquisador sempre demonstrou em relação à sua saga de “Guardião da História do Oeste Potiguar”.

 Ficou-me mais evidente o entendimento sobre seu total despojamento de vaidades e interesses próprios. A sua vida humilde, a casa simples, a modesta aparição em eventos e, até mesmo, pasmem, a enorme cautela em publicar. Tudo tinha sentido e explicação na “contaminação pelo vírus da pesquisa”.

A conclusão é mais que óbvia: Raibrito traduz, na essência, o que é ser um pesquisador. Por tudo isso, se seu acervo não permanecer (como, infelizmente, parece factível), permanecerá seu próprio exemplo pessoal. Tão forte exemplo traspassará gerações e, em algum lugar do futuro, será observado por alguém.

 Quantos raibritos existem em nossa realidade? Quantos pesquisadores labutam na difícil tarefa de preservação da memória de sua gente? Quantos são contaminados pelo “vírus da pesquisa” e vivem dilemas análogos? São indagações sem resposta, bem sei.

Somente a coragem, o desapego a bens materiais e uma forte dosagem de altruísmo podem explicar um pouco da motivação que possui a legião dos infectados pelo “vírus da pesquisa”.

Salve Raibrito!

 [*] David de Medeiros Leite é professor da Uern e sócio efetivo do Instituto Cultural do Oeste Potiguar (ICOP)