Sal, Lamarão e Estivadores: das memórias de Getulio Teixeira

Trabalho da Estiva

 

E. Vale, 1940, o sal da barcaça para o navio, no Lamarão

Durante muitos anos os navios que vinham pegar sal em Macau, ancoravam no Lamarão.  Diversas categorias de trabalhadores faziam parte do processo de carrego: Marítimos, Conferentes, Estivadores, Alvarengueiros, Arrumadores, Consertadores de Carga e Amarradores.

As barcaças transportavam o sal até o Lamarão onde os navios ancoravam. Aos estivadores cabia transferir o sal das barcaças para os navios. O trabalho dos estivadores, responsáveis pela carga e descarga dos navios consistia no seguinte: a empresa, agenciadora do navio, fazia a requisição ao Sindicato dos homens que ia precisar. Os trabalhadores requisitados eram divididos em ternos, composto por um portaló, dois caçambeiros e dois guincheiros. O guincheiro operava o guincho; o caçambeiro era encarregado de orientar e entornar a tina no porão do navio e o portaló fiscalizava o trabalho dos dois. Todo navio que chegava para carregar tinha um estivador como capataz. O capataz era escolhido pela empresa, era o homem de confiança para fiscalizar todo serviço. Alguns navios precisavam de mais de um terno, dependia do numero de porões que receberiam o sal. O trabalho começava mais ou menos às quatro horas da manhã e terminava ao anoitecer. Era um trabalho perigoso em razão do balanço do navio, pois ancoravam no Lamarão, 9 milhas náuticas da costa, mar aberto.

Quando os estivadores iam para bordo, levavam alimentos e um cozinheiro que usava a cozinha do navio e ali mesmo faziam as refeições.  Levavam redes de dormir e dormiam no convés ou no porão dos navios.

Os navios da Companhia Comércio e Navegação [CCN] que operavam no Lamarão, como o Japerí, o Jacuí e o Merití, eram relativamente pequenos, recebiam de três mil e quinhentas a quatro mil e quinhentas toneladas. O Francisco Matarazzo, da Cia. Matarazzo era um pouco maior. O Maria Ramos era um dos menores navios e o maior de todos era o Comandante Martini que levava até doze mil toneladas.

Além dos estivadores sindicalizados existiam os agregados, os “bagrinhos”, que exerciam as mesmas funções dos estivadores, no entanto não pertenciam ao Sindicato e só iam para bordo para substituir o faltoso ou para o trabalho de rechego. O trabalho de rechego era realizado quando o navio já estava com sua carga quase completa. Eles faziam o trabalho de arrumação do sal nos porões.

De Getulio Teixeira [getulioteixeira50@yahoo.com.br] para o baú de Macau