Miragem é a de Macau, onde qualquer um vê, pra cima de Macau da China, mais Jerusalém e Roma!

 

Claudio Guerra, 1983, Moinho Passarinho, Macau-RN

Em outubro de 1981 quando pela primeira vez transpus o Espinheiro – à época construíam os aterros para a estrada – vi miragens belíssimas, eram como cidades fantásticas – nada a ver com a fantasmagórica Macau que encontrei, onde ainda pairava o espectro do desemprego e abandono. Mas, vejam eram apenas as cintilações de sal.   De Claudio Guerra para o baú de Macau

Quando o vento é pintor  [ Da obra Cintilações de sal – E suas maravilhosas lendas através dos tempos, de Jacy do Rêgo Barros. P.95/98]

Antes da cultura científica, arrimada à teoremática, ensaiar vôos a grande altura, especulando as relações de dependência dos fatos – as leis – foi lícito à imaginação popular explicar, a seu modo, aquilo que, aparentemente, escapava ao domínio da razão.             As lendas são o resultado de tal comportamento.          A miragem, fenômeno físico bem discriminado em nossos dias, está entre os casos, explicados de forma estranha e mirabolante, por nossos ancestrais, recuados milênios na cronologia humana.         As populações meridionais do deserto de Saara explicaram o mistério da miragem, frequente naquelas amplidões arenosas, dando a impressão ao caravaneiro de que, ali adiante, estava aquilo de que mais necessitava, um oásis ou porção de terra promissora.       Os haúças, negros daquela região e que foram maometizados ali pelo século X, talvez houvessem sido os autores da explicação da miragem, na lenda do vento pintor.    O singelo enredo é apenas êsse, que nos foi narrado, ainda em dias de nossa infância, por um haúça, mais do que centenário, e mestre de alfaiate em Salvador. Negro austero e digno, que viera menino para nossa s plagas.    Contou:  “O Vento, querendo dar forças ao caravaneiro, que buscava outros mundos, jornadeando na direção das zonas berberes ou egiptanas, pediu licença a Alá para pintar, no horizonte, o indispensável  à animação e alento do viajor, ou seja, terra, água sobrea, frutas.    Sabendo-se que os árabes não permitem reproduções pictóricas da forma humana, donde o estilo arabesco de suas decorações, não será estranha a decisão de Alá, permitindo que o vento fizesse o que aos homens era desejo, porque, numa simples miragem, poderiam figurar homens e mulheres.    A miragem pode dar-se em zonas arenosas intercontinentais, em amplidões geladas e em determinadas praias salineiras, neste último caso resultando da cintilação provocada pelo excesso de Sal.   O curioso que, dentro dessa história, surge uma pilhéria popular brasileira:  Um cearense, desses que representam a energia transbordante das terras de Iracema, encontrava-se em uma caravana, conduzindo  um cáfila de camelos.  Nada de espanto.  O cearense vai para onde quer, para onde a necessidade o tange, e domina em toda parte e em qualquer gênero de atividade humana.   Certa vez, a caravana extasia-se ao vislumbrar uma sedutora miragem. O cearense, falando em árabe, como qualquer outro do grupo, lança a miragem por terra, não para a situar em face da fenomenologia óptica, mas para exaltar a sua pátria.  E brada:  Ora, meu povo, isso é nada! Melhor, qualquer um te no Brasil!   Aí, o cearense desregionaliza-se, por um momento, e chama o Rio Grande do Norte à cena:  Miragem é a de Macau, onde qualquer um vê, pra cima de Macau da China, mais Jerusalém e Roma!   Estimulado pela perplexidade, que forçou uma brusca parada, na marcha dos jornadeiros, o patriotismo do cearense incendeia-se:  E é pra vocês já ficarem sabendo, miragem é mesquinharia. Pra espantá, mesmo, é o Saldo do brasil, que é o Sal mais salgado do mundo! Do mundo, viu?!