Gonçalo

 

Antiga rua onde hoje é a praça da Conceição. Década 1980, Cyber-Macau, Fátima Paulet, 2012

Chamava a atenção pelo seu nariz deformado, como uma bola de carne, saliente.  A lenda dizia que quando criança teve uma parte do nariz arrancado por uma Piranha. Verdade ou não o certo é que o rio onde se banhava quando criança chamava-se Piranhas, antes habitado pelos tapuias que nos setecentos foram massacrados pelos invasores europeus. O aleijo não o incomodava e seus modos educados desapareciam com a deformação. Pelos cinquenta, em Macau, “botador” de água do curral de Luiz Bezerra e fazendo os mandados da casa quando Roberto nasceu e morreu, assim, mais que de repente. Afeiçoara-se à criança e sentiu sua  morte prematura.  Depois foi trabalhar em outra casa de Macau nos mandados e recados e nova tragédia tangenciando sua vida. Outra criança da qual também se afeiçoara foi morta num acidente: um tiro fatal encerrou a vida da criança que passeava inocentemente.  Jurou que não trabalharia mais em casas que tivessem crianças e assim o fez. Encontramos Gonçalo décadas depois, místico.  Acompanhavam-no as alminhas das crianças que ele tanto amou e deu carinho, assim afirmava. E eram elas que agora por meio dele, obravam pequenos milagres, curando os males da alma e do corpo.

De Claudio Guerra para o baú de Macau