O fim das fronteiras

 

Tião Maia, 2011Reisado no Distrito de Barreiras, Macau-RN

Lembro que em uma cerimônia de entrega do título de cidadão natalense ao escritor Ariano Suassuna, o mesmo ao proferir o seu agradecimento destinou parte da sua fala a uma crítica severa ao consumo da cultura estrangeira em detrimento da nacional. O ápice do seu discurso foi o momento em que Suassuna afirmou que após ver o Tributa à Princesa Diana passou a enxergar com outros olhos a Banda Calypso.

É inegável que para a arte não deve existir fronteiras ou ficaríamos sem Chaplin, Kurosawa, Garcia Márquez e Sinatra. Contudo, como em qualquer segmento do mundo contemporâneo, predomina o ideal consumista que transforma lixo cultural em produto a ser vendido por todo o globo, é só lembrarmos de Britney Spears, Madona, Michael Jackson e Ricky Martin. Caso haja uma pesquisa popular no Brasil, tenho certeza que Silvester Stallone e Arnold Schwarzenegger, o Exterminador do Futuro [nunca vi um título tão apropriado!], são mais conhecidos do que os brilhantes Paul Autran e Mateus Nachtergaele. O povo brasileiro, em sua grande maioria consome diariamente subprodutos culturais oriundos de um mundo estandardizado.

Sendo a globalização um fenômeno universal e universalizante espera-se que inexistam barreiras no campo cultural e econômico, entretanto não é o que se percebe. A bem da verdade devo retificar a minha fala. Tanto na cultura quanto na economia não existem barreiras, ao menos para as potências. Os obstáculos são intransponíveis apenas para um dos lados. O país yankee que invade todos os outros com Coca-Cola e Mcdonalds é o mesmo que constrói um muro parara barrar a entrada de latinos em seu território. A União Europeia que embargou a importação de carne brasileira e que não quer reduzir os subsídios para a agricultura, dificultando a Rodada Comercial de Doha, é a mesmo que nos explora há cinco séculos.

A quinhentos anos o povo brasileiro vem construindo sua cultura, que recebeu influências diversas e que nos dá hoje uma característica singular que são as suas múltiplas faces. Possuímos elementos culturais advindos da culturas afro, europeia, asiática e indígena. Não podemos aceitar que o povo desta terra sofra um novo processo de aculturação. Como diz o poeta português Fernando Pessoa: Uma porta tem dos s lados – aquele para onde se abre, e aquele de onde se abre. O espaço aberto da porta é igual para ambos os lados.

Carlos Gregório Bezerra Guerra, estudante de Direito, UNP

Publicado no Jornal de Hoje em 18 de abril de 2008.