Becos, Ruas e Esquinas

Autor: Francisco Rodrigues da Costa

Obra: Becos, Ruas e Esquinas. [ISBN: 978-85-60650-37-8], Editora Sarau de Letras, Mossoró, 2012.

 Excertos:

Um escritor autêntico

Memorialista e cronista, com três livros publicados, Francisco Rodrigues da Costa está para a literatura assim com um artista naif está para a pintura. Dizendo-se jejuno em grandes leituras, ele escreve como fala, ou seja, transpõe a linguagem coloquial do seu dia a dia para a letra de forma, sem qualquer influencia livresca. Por conseguinte, embora sofra, eventualmente, estorvos de natureza sintática, sua prosa ganha em originalidades, distingue-se de tudo que tem surgido, por último no campo da memorialista em nosso Estado. …

Orelha do livro pelo escritor Manoel Onofre  Jr.

A simples arte de um cronista

Um dos seus desafios, caro leitor, ao flanar por entre Becos, ruas e esquinas, na companhia de Francisco Rodrigues da Costa, o Chico de Neco Carteiro, é, entre muitos achados, descobrir em quais páginas o cavalo marchador da prosa prepondera, ou naquelas em o que o  ajaezado galope do potro da poesia mais se nos  revela. … Na verdade, nua e crua, o escriba de Areia Branca é bruxo de muitos truques e recursos. Explico. No mais das vezes, apresenta-nos construções sobremaneira singulares e encantadoras que, admito, é impossível o exercício  da proposta destilação anterior, ou seja, a prosa se imiscui tão carnalmente à poética que nasce algo uno e novo; gênese que nos encanta, ao tempo em que nos intriga. …

Prefácio do escritor Clauder Arcanjo

Remoer o passado é minha característica principal [Chico de Neco Carteiro]

De tudo que li do amigo Chico, este e os outros livros, penso que Garcia Márquez tem razão em afirmar que a vida não é a que a gente viveu e sim a que a gente recorda e como recorda para contá-la. É assim com Chico e sua escrita prenhe de cheiros, de cores e de ternura. E eu o prefiro escavaqueando aquela Areia Branca da sua infância e juventude, de cotidiano simples e por isso encantador com histórias que nos envolve e nos prende na leitura agradável. É também para não desdizer  Montaigne que no seu tempo observa a louvação do passado pela velhice.                                                                                 Posfácio do escritor Claudio Guerra

 

Alto Louvor

Sabem os notívagos da época que, no Alto Louvor, corruptela de art-nouveau, nos tempos áureos viveram as mulheres de vida livre. A pensão de Mariola, e mais a de Luizinha, com a Tia Ciça compunham o complexo do baixo meretrício, capitaneadas pelo Bar Brahma de Antônio Amaral.

Depois, novas casas surgiram: Coimbra, Copacabana, Casablanca, Arpege, Las Vegas, Balalaika.

Existiam os casebres humildes, como o Cai Pedaço ou o Rasga, cuja promiscuidade era um veículo fácil para contração de doenças venéreas. As mulheres ali mal ganhavam para se alimentar ou vestir. A saúde vinha em terceiro plano.

Quem esqueceu Núbia, Luzia Queiroz, Neuza Barreto, Capixaba, Estelita, Rita Loura, Zilda, Eunice Pernambucana, Telma, Maria José, Irinéia, Edite e tantas e tantas outras? Elas viviam a “tragédia das perdidas”, referência no tango “Carlos Gardel”. E alegravam as noitadas do ambiente condenado pela Igreja e pela sociedade. Lugar que todos condenam e ninguém destrói. Onde os homens tapam o nariz durante o dia e escancaram a bolsa durante a noite, na ótica de Humberto de Campos no seu livro Sombras que sofrem. Logo após e sessão cinematográfica no Pax, a “subida” pecaminosa. Marmanjos, trintões, rapaziada e menores de dezoito faziam fila. Para uns, talvez, a primeira experiência sexual. …

Páginas 27 e 28