Memórias da água: O sacrifício da água em Macau

Foto de autor não ident.; década 1950, na Rampa da Prefeitura aguardando o bote de aguada, arq. Francisco Gama

Em Macau na década de quarenta e inicio dos cinquenta era um verdadeiro martírio conseguir água potável. Hoje poucos sabem e outros nem se lembram. A geração de hoje vive num verdadeiro paraíso, pois a qualquer hora que se abre uma torneira, a água está jorrando à vontade. Naquela época os que não podiam pagar um carregador de água, tinham que ir buscar nas rampas, enfrentando o risco de cair no rio, discussões e brigas, cada qual querendo ser despachado primeiro, pois se fosse esperar mais um pouco, era capaz de não encontrar mais água. Certa ocasião eu caí entre a rampa e o bote de aguada e fui salvo por Miguel Baracho, já falecido. Na segunda subida ele me pegou pelos cabelos, salvando-me. A geração de hoje vive no “paraíso” e não imagina o quanto sofreram os antepassados.

O local de atracação dos botes era na rampa do Lage, só muito raramente encostavam no Valadão ou Porto do Roçado. Quando ainda não existiam filas a lei era a do mais esperto ou do mais forte. As mulheres não tinham vez, porque era muito perigoso, pois ficavam sujeitas aos empurrões. Quando cresci e já podia com um calão d’água, não deixei mais que papai carregasse, pois tomei a tarefa para mim. Os afortunados nem se preocupavam, pois pagavam aos carregadores para que levassem a água às suas casas. Comerciantes ou chefes de empresas compravam o carregamento do bote.

Essa forma de abastecimento de água da cidade era feita de uma maneira rudimentar e com muito sacrifício e ficava na dependência da maré e dos ventos, pois os botes grandes de maior calado não passavam pela camboa do Alagamar e vinham costeando para entrar pela Boca da Barra.

Lancha aguadeira Soledade, decada 1950, arquivo de Getulio Moura

O abastecimento oficial, o da Prefeitura era mais organizado. Os botes de aguada atracavam no Trapiche da Prefeitura e a água era bombeada por um motor para a Cisterna da Prefeitura. Vinham das localidades de Barreiras e Diogo Lopes. A forma de distribuição da água, embora não fosse boa, apresentava alguma organização. Tinha uma fila só para as mulheres e três filas para os homens e ainda assim as discussões e os empurrões existiam. A água era despachada por Seu Zé Baiaca e seu filho João Baiaca e mais um auxiliar. João Baiaca, 91 anos é morador da Princesa Izabel.

O consumo de água em Macau era complementado pelo cacimbões da Rua do Arame. Apesar de não servir para beber era utilizada para outros serviços de limpeza da casa e nos serviços de construções. Vários trabalhadores estavam empregados na função de coleta e entrega dessa água que era transportada em jumentos. Seu Cipriano morador da Marechal Deodoro e Dedé Cipriano e Cícero, moradores da Princesa Izabel. Houve também a perfuração de poços na cidade, mas nenhum deles foi aproveitado em virtude do alto grau de salinidade.

Por essas dificuldades passei e vi de perto o quanto sofreu a gente dessa época, e que até água de cacimba bebi no meu tempo na Ilha de Santana. Macau só começou a melhorar com relação á qualidade d’água com o surgimento de tanques em determinadas ruas. Um dos empreendedores foi Leôncio Miranda e um dos tanques ficava no final da Rua Princesa Isabel na esquina com Padre João Clemente. O sacrifício acabou em 1982 no governo de Lavoisier Maia quando o Projeto Alcanorte viabilizou os serviços de água encanada em Macau.

                                                           [*]Bevenuto de Paiva é macauense e colaborador deste site. Escreveu em Natal em 15 de outubro de 2012.