“A terra onde não se morre nunca”

Certo domingo estava assistindo um programa de televisão de grande audiência, cujo quadro “Caçadores de mitos” trazia o “magnifico” questionamento : é possível trazer à superfície um barco naufragado utilizando bolinhas de pingue-pongue? Para o meu espanto, é possível!? É fácil constatar que vivemos um momento onde o saber deixou de ser tratado como labor intelectual crítico, passando a mero reprodutor da cultura alienante.

O Direito não foge à regra, pois dentro do sentido comum teórico dos juristas tudo é pré-determinado. Hoje predominam os manuais com sua reprodução de conhecimento. Não há espaço para pensar: ou se aceita o conhecimento posto ou será chamado de Dom Quixote. O ensino jurídico agoniza e não é por acaso. Sem perceber, este último deixou que a cultura massificante alcançasse seu interior devastando a produção acadêmica, transformando-a em reles atividade reprodutiva. O pensar a algum tempo foi abolido do cotidiano acadêmico.

Conta-nos Ítalo Calvino, em suas “Fábulas Italianas”, que há muito tempo um certo homem temeroso da morte percorreu vales, montanhas, planícies e vilarejos em busca da terra onde nunca se morria. Acabou verificando que sua existência material/mundana não poderia ser eterna. A imortalidade é assunto que nos fascina, mas um dia o corpo padece. Contudo, o fim do existir físico pode não ser um fim em si. Muitos se eternizam no saber – a terra onde nunca se morre.

Em tempos de discussão acerca do ensino jurídico, fico com a lição do imortal Rui Barbosa, que se foi em matéria mas perdura em conhecimento: “Mas, senhores, os que madrugam no ler, convém madrugarem também no pensar. Vulgar é o ler, raro o refletir. O saber não está na ciência alheia, que se absorve, mas, principalmente, nas ideias próprias, que se geram dos conhecimentos absorvidos, mediante a transmutação, por que passam, no espírito que os assimila. Um sabedor não é armário de sabedoria armazenada, mas transformador reflexivo de aquisições digeridas”.

Carlos Gregório B. Guerra, Estudante de Direito, UNP.

Publicado no Jornal de Hoje, 20/11/2007.