Cabôco Chico: uma história do Mata Sete de Macau

 

E.Valle, 1940, Travessa D. Pedro II, Macau-RN

Ele olhou por entre a porta entreaberta e viu passar na calçada um vulto com um carro de mão. Estremeceu. Já muito bêbado, a cabeça rodopiando, a língua pesada e pensamentos que fixavam em nada. Não se fazia entender. Tentou levantar-se e não conseguiu. João Cara de Mula, o empregado do bar fechou mais uma porta e gritou mal educadamente: – Vai sair não?  Ele olhou para João e sorriu um riso estúpido, ingênuo e quis falar alguma coisa, mas não conseguiu. Era madrugada e os bares e cabarés do Mata Sete já estavam quase todos fechados e só mesmo, na esquina, uma luz vermelha numa fachada alta e dois homens conversando aos gritos. Perto, bem perto, músicas que se misturavam: tangos e boleros chorando pela madrugada.  

Tentou levantar-se de novo, mas não conseguiu. Antonio Picado, o dono do bar sorriu malicioso e falou para João Cara de Mula: — É mais um para Cabôco Chico!  

Pampão ouviu aquilo e não pensou em nada. Não estava em condições de pensar em nada. Alguma coisa naquela confusão que estava na sua cabeça lhe dizia que estava em perigo. O nome de Cabôco Chico soava ruim nos seus ouvidos. Pediu com outro sorriso besta ao dono do bar: — Me livre do Cabôco Chico. 

Antonio Picado e João Cara de Mula fitaram Pampão e se olharam com sorrisos maliciosos. Para Pampão tudo rodava. Eram duas mesas, ora três e muitas garrafas e copos misturando-se. Tentou calçar o chinelo e não conseguiu, escorregou e percebeu que o balcão estava perto e longe ao mesmo tempo. Riu novamente o riso besta. Levantou-se e tentou equilibrar-se, mas derrubou a cadeira. Copos e garrafas tilintaram e João Cara de Mula correu e segurou a mesa. 

Por fim, levantou-se e foi até a porta. Estremeceu. Cabôco Chico estava sentado no carro de mão e não tinha pressa. Viu o degrau bem próximo e deu a passada falsa quase caindo. Foi seguro por Cabôco Chico que o amparou já o colocando no carro de mão. 

Sorriu de novo. Sorriram também Antonio Picado e João Cara de Mula fechando definitivamente o bar naquela madrugada.  

– Me livre do Cabôco Chico, gritou Pampão para a madrugada. Cabôco Chico sorriu. Era um negro forte atarracado. Não era alto tampouco baixo. Era forte e totalmente calvo. Os dentes brilhavam. Muito mais nas noites escuras de Macau. O seu trabalho era apanhar os bêbados do Mata  Sete e deixa-los nas suas casas. O frete recebia no dia seguinte quando o sujeito estivesse sóbrio.  

Poderia encerrar aqui a história desse estranho carro de aluguel não fossem as histórias do Mata Sete. Contam que um dia Cabôco Chico não se sabe por que cargas d’água ao levar um passageiro para o Porto do Roçado enfurnou pela mata de Cardeiro das Cacimbas das Imburanas e abusou do sujeito que nunca mais foi visto em Macau. Teve gente que viu o malfeito, dizem. Verdade ou mentira a história correu por todo o Mata Sete e quando Cabôco Chico chegava com seu carrinho de mão procurando bêbados, o povo se alvoroçava. Risos de mofa e malícia. Cabôco Chico parecia não fazer conta daquelas reações, mas os bêbados temiam e mesmo antes de se embriagarem suplicavam ao dono do bar: — Não deixe que Caboco Chico me leve! 

De Claudio Guerra para o baú de Macau [das memórias dos amigos macauenses]