Da tolerância: o existir a partir da compreensão do outro

Séculos atrás, um grande cirurgião francês, ateu convicto, adentrava numa igreja para assistir uma missa. Tal fato deixou indignado o auxiliar do médico que, também ateu, exclamou consigo mesmo: – Hipócrita! Ao deparar-se com o cirurgião o auxiliar indagou-o de pronto: – Como pode ser tão hipócrita? O famoso médico, com a calma que lhe era peculiar, explicou que ao tempo em que era acadêmico a pobreza o assolava e que a única pessoa que o socorreu tinha sido um auvernês, cristão fervoroso, que nunca tinha questionado a sua falta de religiosidade, mas que no final da vida pediu que não lhe deixasse faltar os socorros espirituais da igreja. O auxiliar do médico calou-se. É o que nos conta Balzac em ´´A missa do ateu´´. O médico cirurgião, apesar de não possuir crença, assistiu a missa em memória do auvernês que lhe dedicou cuidados e afeto – um grande exemplo de tolerância.

O existir humano pressupõe a vida em sociedade, pois o homem é um animal social. Por sua vez, a convivência em sociedade é repleta de particularidades e complexidades provenientes da singularidade de cada individuo. Como bem afirma Fernando Pessoa: ´´A vida humana é um tumulto de valores´´. Decerto que do convívio em sociedade surgirão conflitos entre as mais variadas pessoas e sobre os mais diversos temas. Contudo o que não pode haver é a supressão da opinião contrária, já que a evolução da sociedade só se constrói através da dialética.

A aceitação do pensamento divergente deve partir de um processo conscientizante da mudança de paradigma filosófico, ou seja, ultrapassar a autonomia da razão em direção a uma heteronomia fundada na alteridade. A humanidade ainda padece de uma ferida narcisística, a descoberta de que ´´o EU não é senhor de sua própria casa´´, deste modo devemos sanar o mal e esperar a cicatrização da ferida.

É dever de cada um de nós semear a tolerância assim como fez Cazuza, ao escrever: ´´Aos gurus da Índia, aos judeus da Palestina, aos índios da América Latina e aos brancos da África do Sul. O mundo é azul. Qual é a cor do amor? O meu sangue é negro, branco, amarelo e vermelho´´. 

 

Publicado no Jornal de Hoje 14/12/2007, Carlos Gregório B. Guerra, Estudante de Direito, UNP.

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