João Medeiros Filho

 

João Medeiros Filho

obra: 82 Horas de Subversão [Intentona Comunista de 1935 no Rio Grande do Norte]

Gráfica do Senado Federal – 1980 – Natal-RN

O autor foi o chefe da polícia do Rio Grande do Norte à época da Insurreição Comunista de 1935 em Natal-RN. Sobre a região de Macau registramos o seguinte:

p. 67/71 – No relatório datado de Recife, apreendido no arquivo de Harry Berger quando de sua prisão no Rio em 1936, o comunista Santa, que se pensou ser o mesmo Bluche, depois de causticar os elementos militares que dirigiram o levante de Natal, informou que, verificado o fracasso, orientou a formação de núcleos guerrilheiros pelo interior, onde encontrou a maior receptividade, estando os camponeses empolgados pela luta contra o capitalismo, e em favor de Pão, Terra e Liberdade. Ledo engano de procer comunista! Somente no baixo Açu e na região de salinos de Mossoró as forças legais repressoras travaram encontros nos começos de 1936 com vermelhos chefiados pelo advogado provisionado Miguel Moreira, de Lages e por Manoel Torquato, presidente do sindicato dos trabalhadores em salinas, que chegaram a agrupar 40 homens. Em Açu fizeram assaltos a povoados, sequestraram o fazendeiro Jorge Barreto, pai dos atuais capitães de indústria Telmo e Teodato Barreto, da Confecções Contê, de Natal, e no dia 2 de janeiro mantiveram combate com forças do Estado, comandadas pelso tenentes Inácio Vale e Gastão Andrade, no lugar Canto Comprido onde foi morto o fazendeiro Artur Montenegro, conhecido por Artur Felipe, homem destemido e muito estimado em toda várzea do Açu, cunhado do fazendeiro Jorge Barreto já aludido. Nesse refrega os vermelhos foram dispersados e perderam dois homens, sendo um deles o pai de Manoel Torquato. … Esse grupo, mais ou menos esfacelado na várzea do Açu, transferiu-se para Mossoró e passou a interceptar ônibus de passageiros conduzidos por José Rocha e outros, além de ameaças generalizadas à ordem pública. Isto era tanto mais grave quanto se sabia, por inquéritos precedidos, que políticos da área cafeísta auxiliavam os bandoleiros, embora sem que comungassem de sua ideologia, mas talvez para futuro resguardo no caso de um hipotética implantação bolchevista no Brasil. … Nessa conjuntura, o Secretário Geral do Estado, dr. Aldo Fernandes, conhecedor da região, resolveu ir a Mossoró com o intuito de bem organizar em recursos as forças policiais, para facilitar-lhes as duras tarefas. …Viajando em um hidroavião da Panair amerrisou em ª Branca indo para Mossoró em trem especial fortemente guardado pela força pública. No mesmo dia, encontrava-se na ocasião do jantar na casa de sua sogra, d. Isaura Rosado Maia, rua 30 de Setembro, quando ali chegou o comerciante local Antonio Florêncio de Almeida, em companhia de um homem moço, moreno, forte e foi logo dizendo: este é Manoel Feliciano, que veio se entregar às autoridades e quer contar a sua história. Então Feliciano relatou com a maior naturalidade o seguinte: hoje o chefe Miguel Moreira me designou para vir aqui em companhia de Manoel Torquato assassinar Antonio Rodrigues, o Prego Dourado. A minha objeção para não tomar parte na diligência, porque era compadre de Prego Dourado, ele retrucou que no comunismo não havia esses escrúpulos e que missão dada tinha de ser cumprida. Então nós saímos e, ao avistar as luzes da cidade, fui ficando atrás de Manoel Torquato e dei-lhe um tiro à traição. Depois o arrastei para debaixo de uma carnaubeira e resolvi me entregar às autoridades, procurando para isto meu compadre Antônio Florêncio. Aqui estou pronto para pagar pelos meus crimes e só peço a vossa senhoria que me garanta a vida. … De imediato, foi chamado o Capitão Moura que com os demais oficiais acompanhou Feliciano até o local por ele indicado, trazendo-se dentro de meia hora o cadáver de Manoel Torquato para a Delegacia de Polícia, com um balaço na nuca, fardado de brim cáqui, tendo nas ombreiras os distintivos de capitão, em galões vermelhos. … Pelas informações de Feliciano o grupo teria de esperá-los em locais situados na caatinga, entre Alagoinha e Jucury. Numa madrugada de alguns dias depois, houve o encontro das forças legais com o mesmo, já desfalcado de Torquato e Feliciano. Houve tiroteio renhido e afinal, somente debaixo de um grande umbuzeiro um guerrilheiro entrincheirado resistia tremendamente. Depois de cessada a refrega, ouvindo-se apenas tiros esparsos pelos matos, indicativos de uma retirada geral e dispersão dos combatentes, foi encontrado morto, sob um umbuzeiro, um jovem que Feliciano disse ser conhecido pelo cognome de Galego, robusto e alto e que viera de fora para orientar a ação rebelde. Não foi identificado e as suas fotografias e impressões digitais encaminhadas à polícia do Rio de Janeiro, não puderam esclarecer de quem se tratava. Houve informações que seria um acadêmico de engenharia, desembarcado em Natal e vindo a mandado de Prestes engrossar as fileiras de Miguel Moreira e Manoel Torquato. Em seu poder foi encontrada uma carta de um adolescente de Mossoró, recomendando-os ao Cel. Joaquim Saldanha, da fazenda Amazonas, que certamente não os acolheria, pois era frontalmente contrário ao comunismo, conforme fizera comunicar ao Governador Rafael Fernandes em embaixada, por um amigo comum. … A terra mossoroense guarda em seu seio os despojos desse jovem, desconhecido e anônimo, vítima da enganadora pregação marxista, que a sua inexperiência de moço ardoroso e valente não soube repudira. Miguel Moreira, advogado provisionado, desgarrado dogrupo de chefiava, foi preso ao chegar à cidade de Lajes, faminto, extenuado e maltrapilho, quando procurava se acolher ao lar, onde sua esposa, que era agente dos Correios, tantas lágrimas vertera com os seus parentes, condenando a sua atuação vermelha, malfazeja e insensata.

Em 1936 era governador do Rio Grande do Norte, Rafael Fernandes; Secretário-Geral, Aldo Fernandes; Chefe da Polícia: João Medeiros Filho; Comandante da Policia Militar: Major Luiz Julio; Diretor de Saúde: Dr. Armando China;