Saudades de Macau: das recordações do jovem Getúlio

 

Foto autor não ident., decada 1960, Sindicato dos Estivadores de Macau

Plagiando Antônio Carlos e Jocafi, “me desculpem se insisto nesse tema. . .” mas, sou do tempo que para se construir uma casa o tijolo era feito em caieiras e vinha de Pendencias , Alto do Rodrigues ou do Amargoso. Do Alto do Rodrigues seria de  Abelardo Rodrigues, de Pendencias de Chico de Maneco e se viesse do Amargoso seria de Albino Barbalho ou Totó. A cal também vinha do Alto do Rodrigues ou de Mulungu e por fim,  a areia vinha da Guarita na tropa de burros do velho Antão. Os pedreiros seriam  Antônio Jeremias, Banha, Zé Dodô, Luiz Jeremias, Luiz Pedreiro e outros menos famosos.

Sou do tempo em que o parto era em casa e as parteiras, Dona Teodora, Dona Ingrácia, Madalena de Manoel Freire, Mocinha e Mãe Cleonice eram hábeis na profissão. E os médicos com suas inseparáveis maletinhas atendiam os pacientes também a domicílio, independente do dia ou da hora. E reparem, sou do tempo que cada categoria de trabalhadores tinha sua própria previdência: para os marítimos, o Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Marítimos –  IAPM; para os da indústria, o IAPI; para os do comércio, o IAPC, e para os estivadores, o IAPETEC. Todos recebiam assistência médica e odontológica sem os famigerados planos de saúde.

Sou do tempo em que não existia cartão de crédito. Era a palavra e a anotação na caderneta: as pessoas eram atendidas no comercio e realizavam todas suas compras para pagar no fim do mês.  Sou do tempo da carta de ABC, da cartilha de Sarita, do livro de Tio Emilio, da tabuada, do caderno Companheiro, do lápis de cor de coleção, da borracha de encaixe no lápis John Faber, da caneta tinteiro, dos copos dobráveis de plástico, do apontador, da analise sintática, da cópia, da caligrafia vertical, da dissertação e das carteiras duplas, da caneta tinteiro e do velho Chico Ourives recebendo os alunos na porta do Grupo Escolar Duque de Caxias.

Foto autor não ident., década 2000, Seu Agripino, que alugava bicicletas em Macau.

 

Sou do tempo do banho de chuva na bica da Igreja Matriz, do patinete de rolimã, dos carrinhos de lata de leite, das bicicletas de aluguel, dos times de tampa, do jogo de castelo com castanhas, de soltar arraia na Rua da Gameleira e das peladas no velho basquete. Por fim sou do tempo que nós éramos felizes e não sabíamos.

De Getulio Teixeira  [getulioteixeira50@yahoo.com.br] para o baú de Macau