Mestre Luiz Jeremias da Silva/Construtor civil, suas lutas em sua terra [Macau, 1947] por Floriano Bezerra, ex-deputado e líder sindical dos trabalhadores salineiros

Cedo me identifiquei com Luiz Jeremias, pelo caráter, inteligência profissional, dedicação às lutas sociais. Ano de 1947, a repressão do estado burguês, no campo político, mais uma vez rugiu de dentes violentes contra os filhos do povo, na península. Prisões aconteceram, cidadãos tiveram que abandonar a cidade, indo, inclusive para o Rio de Janeiro. No corre-corre medonho eu já me entendia muito bem com o homem simples e amigo, que não abria de sua visão de luta social.

Filho operário, cedo entrou no trabalho como servente de pedreiro e alcançou fama de grande construtor civil. Sua capacidade laboral foi espelho de crescimento profissional para gerações de conterrâneos. Dedicado às boas leituras de livros, revistas, jornais, até de obras técnicas que lhe aguçavam a criatividade e o belo potencial de inteligência. Suas plantas físicas revelavam o extraordinário desenhista, o artista de berço. Vinculado às lutas do proletariado, no primeiro rega-bofe, esteve em fuso com a onda repressora ensejada no país, em 1947. E assim vários outros seus companheiros, na cidade. De consequência, teve que passar uma temporada em outros centros urbanos. Voltando ao Município, ingressou no seu afã de trabalho, em melhores ventos de liberdade política/social. Na prática, era arquiteto e construtor ao mesmo tempo. Dominava o mercado de trabalho na cidade salineira, fazendo escola profissional no seio da população.

Ano de 1950, o líder sindical, Venâncio Zacarias de Araújo projetou e fez construir a sede social do STI da extração do Sal de Macau na Rua João Café Filho, centro e escolheu para Mestre da obra o mais dileto aluno de Luiz Jeremias, João Batista da Costa. Á frente, Prefeito Constitucional, Venâncio contratou Mestre Luiz Jeremias como construtor da Praça Dinarte Mariz – obra realizada em mutirão profissional e daí tantas outras obras físicas da administração. Mas no advento do golpe de 1964, Luiz entrou na mira das forças atrasadas, entreguistas dos interesses do país. Preso, de novo, em Macau/Natal, em quartéis da Polícia Militar. Solto, viajou a outros centros do Brasil, por onde trabalhou na clandestinidade política. Depois na terra berço, recomeçou a profissão, para sustentar a família quase numerosa. Logo buscou fixar residência na capital do Estado, pois o estigma político não lhe permitia viver tranquilo em sua terra Salinésia. Em Natal, foi a óbito por via de problemas cardiológicos. Cujo enterro aconteceu no cemitério público Monsenhor Joaquim Honório, em Macau. Fiz-lhe com firmeza e muita contrição o discurso de pé de cova na presença de dezenas de pessoas, todas em reverência bem sentida ao querido e ilustre construtor civil. No meu improviso fúnebre, finalizando, gritei alto o belo chamamento proletário, responsado por 3 vezes; Luiz Jeremias da Silva, na memória dos trabalhadores, hoje, amanhã e sempre!!

 

Páginas 156/157 do livro Minhas Tamataranas – linhas amarelas – memórias,  do ex-deputado Floriano Bezerra.