O rambol de Chico Avelino, in Becos, ruas e esquinas, de Chico de Neco Carteiro

 

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Terminada a Segunda Guerra Mundial, chega a Areia Branca um francês que ficou conhecido como “o francês”. Vivia sentado no bar de Chico Avelino. Sabia tudo sobre a jogatina: jogo do bicho, roletas de todos os tipos, como “25”, “36”, jaburu, etc.

Em nossa cidade, corria a época do dinheiro farto. Difícil não ter de dois a três navios no lamarão, trazendo e levando mercadoria. Barcaceiros, estivadores, operários de salinas, conferentes ganhavam bem. Um bem, digamos, que sobrava um pouco das principais necessidades domésticas: alimentação, vestuário e estudo primário para a família. Para o resto do salário, havia um destino: a “fuzaca”. O bar de Chico Macau, os botecos da Quixambeta, a pensão de Maria da Pedra, tudo cheirando a “rabo de saia”.

Chico Avelino, juntamente com “o francês”, soube canalizar parte dessa sobra de dinheiro, para um negócio que se tornaria muito rendoso: o “rambol”.

Existia, então, um jogo puramente familiar. Em algumas casas, depois da janta, era comum a prática desse grande divertimento. A casa de Luiz Batista, na Rua da Frente, recebia sua freguesia. Na Rua do Meio, era a residência de Artur Paula que formava uma mesa muita concorrida. E, na rua de Trás, a casa de Zé Birunga tinha Maria “Deil” a comandar o passatempo gostoso, denominado “vispora”.

Muita gente queria participar; como se tratava de ambientes fechados havia o recuo; o receio de ser barrada com um possível: “Você foi convidado?”

Foi ai que Chico Avelino inventou de explorar o famoso “rambol”. Era um jogo igual ao do víspora, um pouco mais sofisticado. Entrada era franca, bastava ter o dinheiro.

O reservado do bar de Chico foi reformado. As mesas, onde se serviam bebidas, foram substituídas por tabuas sobre cavaletes para acomodar a freguesia.  60 coleções foram postas inicialmente á disposição dos jogadores. Devido à grande aceitação da novidade, o número de cartões, em pouco tempo, foi aumentado para 90.

Em vez de cinquenta centavos, como se usava nas casas familiares, a menor aposta no rambol era de dois e o limite, salvo engano, de dez cruzeiros, unidade monetária corrente na época.

O ganhador recebia a bolada conforme o número de participantes. Exemplo: 50 cartelas em jogo, multiplicadas por 2, valor mínimo da aposta = 100 cruzeiros. O banqueiro ficava com 20%, e o felizardo recebia 80 cruzeiros.

Durante muito tempo, até ser proibido, o rambol foi a verdadeira coqueluche em Areia Branca. Chico Avelino sabia como manter a freguesia. Certa vez, ele instituiu um prêmio, que ficou exposto numa placa: 200 cruzeiros para quem “bater” com as cinco primeiras bolas chamadas. Isso era muito difícil de ocorrer. Mas houve um “sortudo” que abiscoitou o prêmio: foi Pedro Brito, irmão de “Chico Preto”, vascaíno que morava lá pras bandas da Travessa dos Calafates. No dia seguinte foi o assunto, nos quatro cantos da cidade.

Êta, rambol de vivas recordações, que em muitas noites fez a felicidade de poucos.

 

p. 139/141, Becos, ruas e esquinas, de Francisco Rodrigues da Costa, Editora Sarau de Letras, 2012.