A Macau do começo do século XX visto pelo escritor Aurélio Pinheiro

O romance Macau foi editado em 1926, e trata do cotidiano da pequena cidade salineira visto pelo escritor Aurélio Pinheiro que foi médico em Macau nos idos de 1909.  A obra é citada pelo mestre Antonio Cândido como um exemplo de romance regionalista. Em 2000 a UFRN fez nova edição do livro como parte da Coleção Nordestina.

Página 115 – Capítulo IX

D. Angelina morava numa casinha amarela e baixa, a um canto da Largo da Conceição, com esquina para a imensa Rua do Cordão Azul.  Descendente de uma velha família de marinheiros, onde a aspereza dos costumes, o arrebatamento da linguagem e um orgulho bravio assinalavam todos os seus membros – ela, desde a infância, revelara viva repulsa por esse meio pobre e rude. Ainda na escola, ainda criança, procurava sempre o contato e a companhia de colegas filhas de comerciantes ou de empregados públicos. Assim crescera afastada da sua gente, repudiando toda uma parentela grosseira de embarcadiços, calafates e pescadores, censurando a selvageria dos seus com uma altivez acentuada e ferina.  …

Por esse tempo, seu pai, um homenzarrão quase analfabeto que comandava o Netuno – um grande iate que fazia viagens entre Macau e Recife – resolvera, por insistência da filha, reunir as economias e comprar uma casinha vistosa e nova no Largo da Conceição. …