Com nenhuma palavra poderei descrever a tensão emocional daqueles dias. [Mailde Pinto Galvão]

Capítulo 18 – Depoimento com Veras, páginas 143 a 147 da obra: 1964, Aconteceu em abril; autora:  Mailde Pinto Galvão; Edições Clima, 1994, Natal-RN

“O mês de julho foi de muita chuva e frio. Numa manhã de neblina o tenente que nos ajudou com Diva [1] aproximou-se da janela e conseguiu avisar que, às 9 horas, viriam buscar-me para prestar depoimento com o delegado Veras [2]. Certamente senti medo de enfrenta-lo; afinal aquele era o momento de maior risco para os presos políticos. Na hora prevista dois soldados armados levaram-me para uma dependência distante do local de nossa prisão. Conduziram-me a uma pequena sala onde encontrei, de cabeça baixa, um datilógrafo junto a uma máquina de escrever.

No centro da sala estava uma cadeira vazia. Sentei-me e esperei. Minutos depois o delegado Veras chegou, vestindo terno escuro, exibindo a elegância que lhe conferia o poder da força e da prepotência. Olhou-me fixamente, como para assustar; lembrei-me de Leonardo e senti que poderia enfrentar o inquisidor maior.

De pé, junto de mim, o delegado deu início a sua missão fascista. Afirmou que conhecia tudo sobre minha vida e sobre os atos subversivos que eu havia praticado como Diretora de Cultura [3].  Aconselhou a não mentir nem omitir o que já estava documentado. Tentava aterrorizar-me como se galanteasse. Caminhava em torno da sala e eu me sentia muito pequena, sentada naquela cadeira. Nem ele nem eu prevíamos a dimensão da minha resistência. As perguntas surpreendiam pela rapidez com que eram formuladas, interrompidas e repetidas. O interrogatório durou todo o dia, com um pequeno intervalo para que o delegado pudesse almoçar e se fizesse a mudança da guarda.  Durante aquele intervalo, entregaram-me meio copo de leite, nada mais.

Quando o delegado voltou, afirmou que estava convencido da minha responsabilidade na preparação de guerrilhas e que eu seria transferida para um cárcere no Estado de Pernambuco. Não acreditei na ameaça,  mas fiquei irritada pelo riso cínico que esboçou.

A segunda fase do interrogatório girou em torno de uma reunião de professores com o prefeito, quando foi estudada a possibilidade de ser editada a cartilha para alfabetização de adultos. A reunião acontecera no bar Briza del Mar, à beira do rio Potengi [4].

A cartilha fora redigida por Diva e adaptada de uma outra preparada pelo Movimento de Cultura Popular de Pernambuco [MCP]. Era utilizada pela campanha De Pé no Chão Também se Aprende a Ler [5], na alfabetização de adultos.

Interrogou, ainda, sobre a conscientização política nos programas da Diretoria de Cultura. Não consegui fazê-lo entender que a palavra conscientização, usada nos nossos programas, destinava-se a preparar o homem para os seus direitos à cidadania, integração e promoção social. Insistia que a nossa conscientização visava à preparação de uma revolução comunista. No interrogatório pude sentir o valor e o significado de cada palavra e cada gesto. Quando me parecia que havia esgotado o assunto, o delegado repetia a mesma pergunta, com outra formulação, como se fosse a primeira vez. Minha resposta teria que ser a mesma, sem me confundir.

O outro policial, José Domingos, companheiro de Veras, entrou na sala; olhou-me fixamente e perguntou se eu gostava de empunhar metralhadora. Senti-me insultada, sustentei seu olhar e nada respondi. Findava o dia quando o delegado encerrou o interrogatório, voltando a ameaçar com a minha transferência para o Recife. O datilógrafo entregou-me o depoimento e assinei, sem ler.

Seis anos depois, tentando conseguir autorização policial para obter um passaporte e viajar à Europa, reencontrei o datilógrafo que me reconheceu e confessou ao meu marido haver sofrido de depressão nervosa durante o assessoramento ao delegado Veras e ainda ser vítima de pesadelos com cenas daquela época. É difícil saber de quantas maneiras tantos sofreram naqueles tempos cruéis da ditadura.

Voltei à prisão escoltada pelos soldados. Chovia e fazia frio, mas, novamente, o oficial de dia se afastara, levando a chave da porta de metal. Tive que esperar no Corpo da Guarda, de onde pude ver alguns rostos por trás das grades, mas a escuridão não permitia identifica-los. Já não suportava mais, passado todo um dia, a necessidade de urinar. Afinal, o oficial chegou, abriu a porta e voltei à prisão. As companheiras estavam aflitas e curiosas mas não consegui falar por muito tempo, o corpo estava dormente e a cabeça esvaziada. Estendi-me na cama e tentei relaxar. Quando pude falar, transmiti todos os detalhes do interrogatório para tentar ajudar às minhas companheiras nos seus futuros depoimentos. Aconteceu, no entanto, que o delegado usou técnicas diferentes para cada uma.

Demoraram alguns dias para levarem Diva. Levaram, depois Laly [6] e, por último Margarida[7]. Todas voltaram muito deprimidas, aflitas e cansadas. Diva chorou muito. Laly mal conseguia controlar o nervosismo e Margarida voltou zangada e revoltada. Todas calaram com pudor, os dramas vividos com o delegado.

Os dias continuaram insuportavelmente lentos. O silêncio só era interrompido pelas cornetas, pelas marchas militares ao amanhecer e pelos disparos das armas nos treinamentos. A falta de espaço físico reforçava o calor humano e a mútua solidariedade de nosso convívio, mas sofríamos terrivelmente, sem liberdade e sem as nossas pessoas queridas. Com nenhuma palavra poderei descrever a tensão emocional daqueles dias.

Certa noite, um soldado aproximou-se da janela interna chamando-me, em voz baixa, e se dizendo meu primo. Acrescentou que servia no restaurante dos oficiais; informou, também, que o responsável pelo restaurante era um coronel recém-chegado do Rio Grande do Sul, que havia pertencido à assessoria do comandante daquela região, tentara resistir e fora punido com a transferência para Natal e reclusão naquele mesmo quartel. O coronel oferecia solidariedade às presas politicas. Fiquei muito assustada por não conhecer aquele parente e por admitir que tentassem nos envolver em alguma trama para comprometimento político. Nosso grau de insegurança justificava o medo e a desconfiança. Agradeci ao soldado e informei que não precisávamos de nada e que as comunicações deveriam chegar através do capitão Lacerda. Desde então, observámos um militar de meia idade, caminhando lentamente, nos fins de dia, pelo pátio do quartel.

Carlos Lima[8] testemunhou as tentativas de aproximação do mesmo coronel com os outros presos. Certo dia, o coronel chegou a dialogar com Djalma Maranhão [9] e pediu desculpas pelas prisões e os demais acontecimentos, tentando justificar que aquele não era o verdadeiro Exército, o Exército de Caxias. Outras vezes ele passava perto da janela e dizia; Meus filhos, tenham paciência, isto vai passar. “Em uma dessas ocasiões foi surpreendido pelo capitão Lacerda, que o repreendeu, o que resultou numa calorosa discussão”.

Mailde Pinto Galvão, Diretora de Documentação e Cultura da Secretaria Municipal de Educação [1960-1964] da cidade do Natal. Governo Djalma Maranhão.

As notas são do baú de Macau

[1] Diva – Professora Maria Diva Salete de Lucena

[2] delegado Veras – Delegado de Polícia Carlos Moura de Moraes Veras, de Pernambuco – chefe da investigação da comissão criada pelo governador Aluízio Alves em abril de 1964 para investigar atividades subversivas e antinacionais. A comissão era formada Secretário da Justiça Jocelin Vilar, o Secretário de Segurança, Cel Ulisses Cavalcanti,o Secretário da Saúde,  Abelardo Calafange, o comandantes da Polícia Militar, cel Silvino Ferreira

 [3] Diretora de Cultura – A Diretoria de Documentação e Cultura da Secretaria Municipal de Educação, Cultura e Saúde do Natal, a DDC, localizada na Avenida Duque de Caxias na Ribeira “mantinha como linha básica a democratização da cultura”. Praças de Cultura com bibliotecas, jornais murais, quadras de esporte e parques infantis “promovia a integração com a comunidade dos bairros onde as praças eram instaladas”. Mantinha Galeria de Arte na Praça André de Albuquerque com exposições e  biblioteca e também uma concha acústica para teatro, música e cinema. Praças de culturas com feiras de livros, arte, discos, exposições culturais, noites de autógrafos, música e apresentação de grupos folclóricos. Das atividades permanentes o Teatrinho do Povo no Alecrim, hoje Teatro Sandoval Wanderley, Museu de Arte Popular, Hemeroteca, Setores de pesquisa divulgação cultural e valorização do folclore, Promoção de festas tradicionais e folclóricas. Os empréstimos de livros em alguns bairros chegavam a 2.500 livros mensais.  Foi essa DDC que os investigadores da ditadura a mando do governador Aluízio Alves considerou como estrutura de preparação de guerrilhas.

[4] Rio Potengi, o rio grande do norte. Belíssimo rio ao norte de Natal e que divide a cidade. Na sua foz está a Fortaleza da Barra do Rio Grande [Forte dos Reis Magos],  edificação do século XVI.

[5] Campanha de Pé no Chão Também se Aprende a Ler –  Campanha iniciada em Natal[RN] em 1961 pelo prefeito Djalma Maranhão baseada no método do Educador Paulo Freire.

[6] Laly – Médica Maria Laly Carneiro

[7] Margarida – Professora da UFRN Margarida de Jesus Cortez

[8] Carlos Lima – Carlos Alberto Lima, jornalista e editor. Proprietário da Editora Clima responsável pela publicação de obras importantíssimas da história do povo potiguar.

[9] Djalma Maranhão – Deputado Estadual em 1954; Deputado Federal em 1958; Prefeito de Natal [RN] em 1960 desenvolvendo uma administração popular, anti-imperialista, nacionalista e com forte identificação com a educação e a cultura popular. No seu governo foi implementada a campanha De Pé no Chão Também ser Aprende a Ler baseada nos ensinamentos do educador Paulo Freire. Foi cassado pelos golpistas de 1964 e morreu no exílio em 1971 em Montevidéu, Uruguai.

Leia mais sobre o tema:

Sem paisagem – memórias da prisão – Moacyr de Góes, Sebo Vermelho, 2004, Natal-RN

Minhas Tamataranas: linhas amarelas – memórias, Floriano Bezerra, Sebo Vermelho, 2009, Natal-RN

Dois Livros de Djalma Maranhão no exílio – Moacyr de Góes [org.], 1999, Editora Artprint Ltda, Natal [RN]

Lendo e aprendendo – a campanha de pé no chão – José Willington Germano – EAA, Adurn e Cortez Editora, 1982, Natal-RN