À Amada

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À Amada

Salve, salve. Como está Amada Macau? Melhorou? As notícias que recebo de seus filhos não são boas, mas sei que você é forte e há de vencer mais essa. Tantas crises e traições seguidas devem estar abalando você, mas saiba que é amada, idolatrada e jamais será abandonada. Amada Macau, posso ser sincera com você? Você é rica, gentil e generosa, mas dá muita bandeira, por isso abusam da sua boa vontade. Aproveitadores prometem servi-la e roubam de seus cofres. Covardes juram protegê-la e atiram em sua gente pelas costas. Falam besteiras em seu nome, debocham de seus defeitos, sonegam o que lhe devem. Por outro lado, você nunca esteve tão livre. Tão respeitada pelos seus filhos. Sua beleza e sua simpatia sempre foram reconhecidas, mas agora elogiam também sua inteligência e seu bom gosto. Copiam o que você veste, querem saber a fonte da sua energia, até depilam-se à sua maneira. Portanto, querida, talvez seu problema seja mesmo de auto-estima. Você é virginiana, de 9 de setembro, certo? Então está sempre desconfiada e insegura. Não consegue tomar decisões e, muitas vezes, foge às responsabilidades. Assuma Amada Macau, que você é legal, mas vacila. Aprenda a punir quem abusa de seus favores e a tratar bem quem procura seus serviços. Afaste-se dos bajuladores e abrace seus desvalidos. Seus verdadeiros amigos não estão nos banquetes em sua honra, mas nos bobocas que calçam chuteira com você. A hipocrisia, maldita praga que seu ardor atrai, é a raiz dos seus problemas. Mas, calma, tudo tem jeito, você já resistiu bravamente há dias pior. Quando nem se sabia quanto roubavam de você. Quando sujavam seu nome em porões de tortura. E hoje, Amada Macau, você não carece de grandes atos de heroísmo (como os de Chico Mariano e os Floriano Bezerra e outros), mas de pequenos gestos de respeito. Não precisa de novos salvadores, mas dos velhos sobreviventes. Inspire-nos a ver que não somos coitadinhos, somos até sortudos. Vemos tornados, terremotos e bombas terroristas pela televisão. Moramos de frente para a praia, com o mais verde quintal do mundo. Tem-se a corrupção como mal encruado, que seja essa a nossa luta. A grande batalha que venceremos em seu nome. Freud disse: “Primeiro, olhe bem as profundezas da sua alma e aprenda, a saber, quem você é; depois, entenda o que há de errado com você”. Cazuza fez uma música dizendo a mesma coisa, lembra? Por mim, você abandonava de vez esse positivismo cafona, que um dia lhe impuseram como lema. Não é pela ordem que seus filhos se destacam pelo mundo, é pela bagunça e festa. O progresso? Vem naturalmente quando se vive em paz, num ambiente fértil. Se for necessário um mote para completar a lacuna, que o escolham de onde sua alma se manifesta: nos pára-choques de caminhão. Já imaginou? Você de azul e branco e, na faixa, em sua testa estrelada, escrito assim: “Não tenho tudo que amo, mas amo tudo que tenho”. Ou simplesmente: “Existo porque insisto”. É atrás da pompa dos palanques que se escondem seus inimigos.

Izan Lucena, abril de 2011

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