A leiteira do juiz: uma história de “sabidência” na Macau dos sessenta.

 

E. Valle, 1940, Rua Frei Miguelinho, Macau-RN, arquivo: Francisco Gama

Certo juiz de Direito de Macau necessitando de uma pessoa para realizar algumas tarefas profissionais e domésticas, procurou seu amigo delegado de polícia que ficou de ver como atendê-lo. O delegado lembrou-se que entre os apenados, um deles poderia fazer os mandados do magistrado. Falou com Manoel Caíco, preso por pequenos furtos, pessoa tranquila e de bom comportamento, na verdade boa gente. E Manoel Caíco nem pensou duas vezes. Era uma dádiva. A partir de agora era ajudante de ordem do juiz de Macau.

Entre os mandados do juiz, um era apanhar o leite das crianças no curral de Luiz Bezerra. Como homem mundano naquela Macau pululante de vida é certo que não resistiria os apelos dos bares, cabarés e jogos, enfim,  a vida lá fora. E então a leiteira de alumínio, grande para todo mundo ver, ficou companheira inseparável, o seu salvo conduto.

E quando algum soldado avistava Manoel Caíco na zona de meretrício, o Mata-Sete, e o ameaçava levá-lo de volta á prisão, ele retrucava: Tudo bem, pode me leva prá delegacia, agora se os meninos do dotô juiz amanhecê sem leite, digo que o culpado foi você!

Era um habeas corpus robusto.

De Getulio Teixeira [ getulioteixeira50@yahoo.com.br] para o baú de Macau