Relatório Veras, Aluízio Alves e Djalma Maranhão que morreu no exílio de saudades de Natal

Página 61/62 – 2 Livros de Djalma Maranhão no exílio; Moacyr de Goes [org.]; 1999.

A terceira especificidade do Rio Grande do Norte, na questão do Golpe de Abril [1], diz respeito ao racha das oligarquias sertanejas, configurado na luta entre o dinartismo [2] e o aluizismo [3].  …  O Governador Aluízio Alves [4], que precisa ser mais realista que o rei, face ao novo bloco no poder, vai empreender uma verdadeira “marcha de flanco” e afastar da cena política seu incômodo opositor ideológico, o Prefeito Djalma Maranhão [5], e, ao mesmo tempo, prestar serviços ao militarismo que tomara Brasília e, no Nordeste, dá as cartas a partir do IV Exército, no Recife. São dois coelhos de uma só cajadada. Cria a Comissão de Inquérito [6] para investigar e denunciar os subversivos  do Estado como linha auxiliar aos IPMs que então surgiam em todos os cantos do Brasil …  Com currículos de cursos no FBI, chegam a Natal, contratados pelo governo do Estado, os policiais Veras e Domingos para dirigir as investigações. O alvo é o mais evidente possível: o Governo de Djalma Maranhão e, de forma ancilar, os setores camponês, sindical urbano, estudantil e repartições federais e municipais. A Comissão, com poder de polícia, prende, investiga, indicia e oferece subsídios ao IPM, presidido pelo Capitão Ênio Lacerda, do Exército. …  Em 4 de maio de 1965, a Sétima Região Militar do Recife denuncia 60 dos 83 indiciados do Rio Grande do Norte.  Moacyr de Goes

 

As notas são do baú de Macau

Sobre Moacyr de Góes [1930/2009], Secretário de Educação de Natal, Prefeito Djalma Maranhão [1960-1964]; Coordenou a Campanha de Pé no Chão também se Aprende a Ler. Professor do Ateneu e da UFRN [História da América e de História Econômica]. Preso político em 1964, anistiado em 1979. Professor da UFRJ, Secretário de Educação do Rio,  Prefeito Saturnino Braga [1987-88]; à Secretario de Educação de Natal, Prefeita Vilma Faria [1989]. Escritor, publicou os seguintes livros: De Pé no Chão também se Aprende a Ler – uma Escola Democrática; Sem Paisagem – Memórias da prisão e o romance Entre o Rio e o Mar; 2 Livros de Djalma Maranhão no exílio [organizador]  e com Luís Antônio Cunha,  O Golpe na Educação. Na revista Contexto e Educação [1995] o estudo Cuba-Recife-Natal: o sonho de três cartilhas de alfabetização para mudar o mundo.

1 – Golpe de Abril: O chamado Golpe de Abril ou Golpe de 1964 foi um movimento armado de parte de burguesia [com apoio norte-americano, CIA, etc.] e participação decisiva de parte das forças armadas brasileiras contra o um governo eleito pelo voto soberano do povo brasileiro. Foi um golpe contra o nacionalismo representado pelo presidente João Goulart e que contava com o apoio de setores das forças armadas, de governadores e congressistas. O governo Goulart propunha uma série de reformas do Estado Brasileiro. As chamadas Reformas de Base buscava melhor redistribuição de renda e avanços nas áreas da saúde e educação. Propunha a reforma agrária e bancária dentre outros pontos e o controle da remessa de lucros para o exterior. O golpe de 1 de abril de 1964 retirou do poder pela força das armas o Presidente João Goulart, cassou parlamentares, perseguiu, prendeu e torturou milhares de cidadãos. Do golpe resultou o período ditatorial [1964 a 1985] com a suspensão das garantias individuais, censura, etc. Em 1985 uma eleição indireta indicou o novo presidente, o civil Tancredo Neves que substituiu o General Figueiredo, o quinto militar a comandar a ditadura.   

2 – dinartismo: corrente política no Rio Grande do Norte dos seguidores de Dinarte Mariz [1903-1984], Comerciante de algodão, prefeito Caicó [1930]; Senador [1955/1956] Governador  [1956/1961] e depois Senador [1963/1970]; e Senador biônico [1971/1978] [1979/1984]. Dinarte Mariz apoiava o governo de Djalma Maranhão a quem reconhecia como um nacionalista. Após o golpe, Dinarte Mariz passa ser político de confiança da burguesia e militares golpistas a quem prestou grandes serviços.

3 – aluizismo: os seguidores de Aluízio Alves [1921-2006].

4 – Governador Aluízio Alves[1921-2006]: jornalista e advogado foi Deputado Federal em várias legislaturas [1945-1958, 1966 e 1990] Governador do Estado [1961-1966] Ministro da Administração [1985-1989] e Ministro da Integração Regional [1994-1995]. Logo após o golpe de 1964 filiou-se à ARENA, hoje Democratas; Foi cassado pelo AI-5 acusado de corrupção. Em 1970 filiou-se ao MDB. 

5 – Prefeito Djalma Maranhão: – Deputado Estadual em 1954; Deputado Federal em 1958; Prefeito de Natal [RN] em 1960 desenvolvendo uma administração popular, anti-imperialista, nacionalista e com forte identificação com a educação e a cultura popular. No seu governo foi implementada a campanha De Pé no Chão Também ser Aprende a Ler baseada nos ensinamentos do educador Paulo Freire. Foi cassado pelos golpistas de 1964 e morreu no exílio em 1971 em Montevidéu, Uruguai.

6 – Comissão de Inquérito:  que gerou o chamado Relatório Veras foi publicado pela primeira vez nos jornais O Poti [ de 20 a 27 de setembro de 1964] e no Diário de Natal [28 e 29 de setembro de 1964]. Os policiais Carlos Veras e Domingo da Silva foram contratados em Pernambuco pelo governador Aluízio Alves para a Comissão de Investigação sobre a subversão no Rio Grande do Norte [Decreto de 17/4/1964, publicado no Diário Oficial de 29/4/1964. Os policiais, sem provas, acusaram centenas de patriotas brasileiros que construíam na cidade do Natal uma das melhores ações culturais e educacionais aplicadas no Brasil. Os golpistas de 1964 foram acolhidos no Rio Grande do Norte pelo governador Aluízio Alves que apoiou o golpe desde o início. Sempre é preciso recordar que o Presidente João Goulart fora eleito com o voto livre e soberano do povo brasileiro.