Mossoró, Lampião e o relatório do gerente do Banco do Brasil. Era 1927. [2/7]

Dividido em 7 posts, o baú de Macau está publicando neste  dezembro  o chamado Trecho do Relatório da Agencia Local do Banco do Brasil S.A. referente ao primeiro semestre de 1927, no qual estão feitas descrições do que foram os dias de terror para esta região em virtude dos ataques dos bandoleiros de Lampeão a Mossoró.

Banditismo – É inacreditável existirem ainda no século em que vivemos, com o avanço permanente da civilização, no vasto interior dos sertões nordestinos, bandos armados que roubam, depredam, martyrisam, matam o deshonram. É ainda uma estilha de barbaria primitiva que a condescendência de certos governos está deixando eternizar, com grandes prejuizos para a Nação. De quando em vez grupos de individuos, na mais revoltantes das covardias, pois a sua arma de maior successo é a surpresa, investem contra cidades, villas e povoados. Esses assaltos que cada vez se tornam mais audaciósos e repetidos, haja visto o desta cidade, distante cerca de 40 kilometros do littoral, em 13 de junho do anno corrente, constituem um pesadello indefinido para as populações laboriosas, ordeiras e honestas, ao mesmo tempo preocupadas em defender a vida e a honra de suas famílias, já que não podem garantir as suas  propriedades.

Na verdade é uma situação tristíssima, na qual já nos encontrámos, e representa um doloroso aspecto no sertão. E quando nos vem é lembrança que essa situação deshumana é simplesmente criada e alimentada por certos ‘coronéis’ de influencia politica nas zonas quem que pontificam, cuja moralidade e compostura bem se ajustam aos actos canibalescos do banditismo, não podemos esconder o espírito de revolta que nos vae n’alma.

O cangaceiro, na sua horrenda psychologia, é ainda um typo superior a desses teratologicos “coroneis”, seus mandantes e protectores.  Pelo menos aquelle arrisca a propria vida enquanto estes, commodamente, aguardam o producto dessas villigiaturas, em que a morte é o mais humano de todos os crimes.

O cangaceiro não é originalmente um caso psychologico. Não é também o caldeamento da raça, nem outras phantazias literárias que surgem, á miude, ora em artigos pela imprensa, ora em duellos oratórios, nas duas casas do Congresso. O cangaceiro é, em geral, um typo normal; degenera-se pelo consorcio permanente de duas calamidades: a falta de policia e a falta de justiça, resumidas em uma outra maior do que estas – a falta de governos.

O cangaceirismo é uma fonte de receita de certos, determinados e conhecidos “coroneis” do sertão que, explorando a ignorância e a falta de instrucção de trabalhadores de suas fazendas e sítios, que hajam em qualquer occasião demonstrado coragem, falos ingressar na senda do crime, primeiramente na consecução de certos “servisinhos particulares”, insinuando-os depois ao banditismo, mediante as seguintes condições: – metade dos roubos, abrigo, protecção, armas e munições. Contam tambem esses bandos de scelerados com a proteção de alguns officiaes das milícias, commandantes de columnas volantes que apparentemente os perseguem, em troca de “gordas” gorgetas. Isso está mais do que provado. Estão ahi os depoimentos dos cangaceiros aprisionados e as entrevistas concedidas, num momento de revolta, por officiaes das policias cearense e norte-rio-grandense que estiveram em encalço do negando grupo de “Lampeão”, que atacou esta cidade, motivadas pelas occorrencias deprimentes verificadas durante a perseguição movida, pela primeira vez, pela polícia cearense, cujo comando, segundo afirmam  aquelles officiaes, estava entregue a um oficial que é cunhado de um dos maiores protectores daquele  execrando facinora, si já não bastasse o testemunho insuspeito de varias pessoas de fé, residentes nas localidades em que “Lampeão “ e seus asseclas são bem recebidos.

Aurora, Lavras, Missão Velha, Joazeiro, Crato, Barbalha, Milagres e muitas outras localidades situadas na zona do Cariry, são fócos permanentes do banditismo. Ahi se refazem constantemente, em armas e munições, homens e animaes, esses grupos que andam levando o desassossego, a deshonra e o luto, através do imenso território de quatro Estados-Rio Grande do Norte, Parayba, Pernambuco e Alagôas.

Por residirem em território cearense os maiores protectores desses bandos nefastos e certamente por  insinuações daqueles, essas feras tornam-se em verdadeiros cordeiros logo que ingressam em território cearense. Dahi o atribuir-se, com visos de verdade, ao Governador daquele Estado, quando interpelado, antes desta ultima excursão do grupo de “Lampeão”, por que não perseguia esse bandido e seus companheiros quando acoitados em território cearenses, a resposta de que “não os perseguia porque nada commettiam em seu Estado”(?!).

De todos os Estados citados, quando teem o seu território invadidos por essa malta de degenerados, são recebidas noticias frequentes sobre a posição dos bandidos ou o rumo que tomaram, porém logo que penetram em território cearense as noticias escasseiam até desaparecer completamente, ou então são mentirosas, como se constatou, quando “Lampeão”, antes de entrar em território norte-rio-grandense, atravessando o Estado da Parayba se passou para o Ceará. Deste foi comunicado que “Lampeão” com o seu grupo havia rumado o Estado do Piahhy quando effectivamente elle se encontrava em Aurora, preparando-se para o ataque a esta cidade.

Si medidas severas e radicaes não forem, a tempo, tomadas, na repressão ao banditismo, este tende a se alastrar cada vez mais, sendo imprevisível até que ponto chegará. Consequencias ruinosas para a Nação já se vão verificando. Os proprietários de terras, situadas nas zonas infestadas por esses grupos de bandidos, que dispõem de algum recurso, já estão abandonando as suas propriedades. Pessôa que viajou recentemente por esses lugares informa-nos que é verdadeiramente acabrunhador o ver-se léguas e mais léguas de terrenos fertilíssimos completamente abandonados, quando outrora ahi se via labôr intenso.

Por todos os motivos, de ordem moral, financeira e econômica, esses factos deprimentes e ruinosos pra a Nação não devem nem podem continuar.  Urge que o Governo Federal, reconhecendo a impotência ou a indiferença dos Governos Estadoaes, tome medidas enérgicas para extirpar de vez esse cancro do organismo nacional.

Dentre os planos de grande visão do actual Governo, está o da estabilização da moeda, que já está feito sem quase se sentir, o que prova a excellencia do plano, e consequentemente o da sua conversibilidade.

Assenta-se o plano em primeiro estabilizar para depois converter.

O exito desse grande emprehendimento, no futuro, reside no saldo da balança commercial que nos deverá fornecer o excesso da exportação sobre a importação. No manancial agrícola do Paiz está, portanto, o factor máximo. Este que deve, por todas as fórmas, ser desenvolvido, está affectado com os actos cannibalescos do Banditismo que em vista disso, deixou de ser um damno regional para ser nacional. Impõem-se, pois, medidas promptas e decisivas para debellar o mal.

É o que esperam do Governo Federal as populações nordestinas.

A nota é do baú de Macau

1] O relatório do gerente Jaime, pungente e indignado retrata com fidelidade o sentimento de um povo que experimenta, nas primeiras décadas do século XX,  as modernidades que vão se incorporando ao cotidiano das cidades. “Inacreditável” diz Jaime, e é o que todos dizem.  Para Eric Hobsbawn [1917/2012] são rebeldes primitivos de movimentos pré-políticos. Para Jaime, é “estilha de barbaria primitiva” e é também “a falta de polícia e a falta de justiça” que no resumo é a “falta de governo”.

Para Graciliano Ramos [1892/1953]  ele se transforma de “um fenômeno social, agravado por motivos de ordem econômica [Jesuíno Brilhante, etc.] para “um fato de natureza econômica, ampliado por motivos de ordem social”. {Lampião, etc. ].

A propriedade como bem, está garantida: são pré-políticos. Mas causam terrível mal. E os do tipo de Lampião, mais ainda.

E homens e mulheres estão no bando acompanhando o capitão porque mataram-lhe o pai, pisaram-lhe no pé, na feira, deram-lhe uma surra de facão ou porque não  há comida, não há bebida, não há justiça e como diz Jaime, “não há governo”. E então rapazes e moças daquela  juventude sem perspectiva naquele mundo branco e seco da caatinga, a tanger o gado ou apanhar o algodão, um dia procura o capitão,  encanta-os a estética do cangaço, da vida sem destino e do risco, dos chapéus com moedas cravadas, esporas, anéis, bolsas e bordados. O codinome na ponta da língua. Seu nome vai ser cantado nas feiras.

Para o gerente Jaime, os coiteiros eram civis e militares, os civis cearenses, todos e os militares cearenses e norte-rio-grandenses. É certo que Floro Bartolomeu [1876/1926] e padre Cícero [1844/1934] armaram o bando e tornaram Lampião, Capitão, para combater a Coluna Prestes [1925 a 1927]. Nem ouve o confronto, mas o bando de Lampião ficou bem armado.

E apelo do gerente Jaime, desesperado, Getulio ouviu. “Urge que o Governo Federal, reconhecendo a impotência ou indiferença dos Governos Estadoaes, tome medidas enérgicas para extirpar de vez esse cancro do organismo nacional”.