“Poeta desgarrado, ovelha solitária, solista desafinado,…”

O belo destino do dissidente Benito

 

Benito Barros em Macau. Foto da jornalista Regina Barros. 2005.

O que posso dizer de Benito? Tenho dificuldade de encontrar palavras exatas. Fomos amigos desde o início dos anos setenta. Colega de classe de Getúlio, um dos irmãos de Benito, eu frequentava o chamado “Consulado de Macau”: o apartamento onde eles moravam, no Recife. Eu poderia dizer que um traço do comportamento de Benito nos aproximou de imediato: entre seguir a boiada e conviver com a solidão, ele escolhia, sempre, a segunda alternativa. Em qualquer situação, eu sempre, sempre preferi os dissidentes. E Benito era uma ovelha desgarrada, um poeta solitário, um solista que não se importava se ninguém ouvisse seus acordes desafinados. Porque ele sempre soube que era preciso “desafinar o coro dos contentes”. Tinha uma natureza noturna, aquela descrita com exatidão pelo poeta Capinam, na letra da canção que Fagner cantava no velho toca-discos; “Tenho o mesmo segredo/dos malditos solitários/ só a note é minha amiga/ a quem friamente confesso/a natureza noturna dos meus infernos diários”.

Não por acaso, Benito preferia a melhor de todas as companhias: a dos poetas, encontráveis ao alcance da mão, logo ali, na estante abarrotada de livros. Quantas e quantas vezes não o vi, sozinho, plantado na janela do primeiro andar daquele prédio da rua do Riachuelo, no centro da cidade, soprando nicotina nas noites recifenses? Enquanto amigos iam para a festa, Benito ia para a poesia. A paixão pela poesia, aliás, já seria uma virtude suficiente. Mas eu poderia citar outras. Benito fazia parte da tribo – sempre necessária – dos que dizem não, não e não. Bem jovem, poderia estar pensando antecipadamente em carro do ano, conta no banco ou roupa de grife. Mas, não. Quando o Brasil atravessava a noite espessa da ditadura, lá estava Benito – do lado certo. Uma vez, me convocou para que eu escrevesse alguma coisa para um jornaleco mimeografado que protestava contra a prisão de um estudante. Cumpri a tarefa. Cometi  versos que, certamente, jamais passariam no teste de qualidade. Mas aqueles versos tortos, cometidos por exigência de Benito, eram pelo menos uma tentativa de dizer a palavra que ele tanto prezava: não.

Depois, a vocação que já se desenhava ali, enquanto ele soprava nicotina nas noites capibaribes do Recife, terminou se confirmando: Benito se revelou um senhor poeta. Não é exagero dizer: Benito era um senhor poeta, sim.

Já distante, no Rio de Janeiro, tive a chance de dizer a ele, em longas conversas por telefone, que ele tinha obrigação de divulgar de todas as maneiras os poemas que ele passou a produzir com um bem- vinda frequência. Fiquei de tentar ajudar na publicação de um livro. Benito me mandou pelo correio um disquete com os versos de Nuvem Náufraga”. Tive uma pequena surpresa: ele terminou dedicando a mim o livro – que deveria ter sido publicado por uma editora de alcance nacional. Mas a poesia, como se sabe, vale pouco, numa sociedade em que o mercado é o termômetro de tudo. Talvez seja melhora assim. Porque, dessa maneira, os que apostam em versos e investem em poemas – e não em dinheiro – continuarão a fazer sempre parte da ala dos dissidentes e dos desgarrados. É a tribo de Benito. Sempre foi. Uso o verbo no presente. Porque, com todos os méritos, Benito se tornou sócio permanente da Tribo dos Dissidentes.

Poeta desgarrado, ovelha solitária, solista desafinado, o dissidente Benito, enigmaticamente, ficava contemplando estrelas na janela daquele endereço no Recife. Eis aí uma lembrança forte. Toda vez que ele for lembrado, os versos que ele escreveu e as histórias que ele deixou haverão de brilhar, sem alarde, no ceú de uma cidade do interior, como agora. Eis aí um belo destino.

Geneton Moraes Neto é jornalista