Mossoró, Lampião e o relatório do gerente do Banco do Brasil. Era 1927. [3/7]

Ataque a Apodi

Dividido em 7 posts, o baú de Macau está publicando neste  dezembro  o chamado Trecho do Relatório da Agencia Local do Banco do Brasil S.A. referente ao primeiro semestre de 1927, no qual estão feitas descrições do que foram os dias de terror para esta região em virtude dos ataques dos bandoleiros de Lampeão a Mossoró.

“Ataque á cidade de Apody – Ocorreu ás primeiras horas da manhã do dia 10 de Maio do corrente anno [1]. Á exemplo dos revoltosos, o primeiro cuidado do grupo atacante foi destruir a estação telegraphica, evitando assim qualquer communicação do que se estava passando naquella cidade. O grupo era composto de cerca de 30 homens. Montados e armados com fusil mauser, typo 1908(!), bem municiados, chefiado pelo perigosíssimo facinora Massilon Leite, que tambem se encontrava entre o que posteriormente assaltaram esta cidade, em 13 de Julho do corrente anno.

O ataque levado a effeito nessa cidade, que dista cerca de 15 leguas desta, segundo as declarações de um cangaceiro do grupo, aprisionado em Martins, quando tentava fazer espionagem, fora insinuado por pessôas inimigas dos que actualmente occupam as posições de comando da politica. Por isso não se verificaram, em sua plenitude, os costumazes actos de vandalismos que caracterisam esses ataques inopinados de bandidos, visto os mandantes terem também amigos naquella cidade, aos quaes não desejavam fazer mal.

O assalto visava a morte e aplicação de surras em determinadas pessôas que o chefe do grupo, não se sabe por que, não levou a effeito. Limitaram-se os bandidos a saquear e incendiar os estabelecimentos comerciaes e casas particulares dessas pessôas. Verificou-se apenas uma morte – a do negociante Manoel Rodrigues, assassinado friamente por um dos facínoras do grupo, desaffecto da victima.

Do assalto á cidade de Apody que, como dissemos acima, se verificou ás primeiras horas do dia 10 de Maio, só tivemos notícia ás 10 horas da noite desse mesmo dia por um telegrama dirigido ao Snr. Rodolpho Fernandes, mandado passar em S.Sebastião, 8 leguas distante daquela cidade, por uma portador que uma das pessôas visadas pelo grupo consegui mandar do seu esconderijo.

De pósse dessa noticia alarmante, o Snr. Rodolpho Fernandes, que é o digno Prefeito desta cidade, deu sciencia a todas as pessôas de responsabilidade da cidade, inclusive ao Gerente desta Filial, que reside em casa contigua á daquela auctoridade.

 Na persuasão de que o grupo pudesse ter rumado para esta cidade, onde poderia estar ás primeiras horas da manhã do dia 11, aquella auctoridade tratou logo de ver quaes os meios de que poderia dispor para a defesa da cidade, em caso de qualquer ataque.

Nessa noite agitada de geraes e horríveis apprehensões, depois de muitos esforços, ficou constatado que se poderia contar com meia duzia de soldados da policia estadoal, mal municiados e meia duzia de rifles com reduzida munição, muito embora não faltassem gente que  a todo o momento se oferecia. No commercio não havia, nem há, estabelecimento que tivesse armas e munição, artigos esses que aqui vão rareando, devido ás difficuldades  existentes actualmente na sua acquisição.

Nessa noite horrível em que o próprio Delegado de Policia nem seu substituto legal aqui não se encontravam, o que bem mostra o abandono e o descanso por esse importante serviço, ninguém mais dormiu; todas as famílias se conservaram accordadas, na dolorosa expectativa de ver a cidade, de um momento para outro, ser atacada, sem que pudesse ser defendida, á falta de elementos.

Felizmente a hypothese não se concretizou, mas o ambiente de terror ficou implantado”

A nota é do baú de Macau

[1] No relatório do governo do Estado de 1924, a invasão de grupos de cangaceiros é vista como improvável, como nesse trecho da página  45 “Felizmente, o nosso Estado, conforme as suas tradições e a índole geral da sua gente, continua imune da praga do cangaceirismo, e tudo farei, no decorrer da minha administração, para impedir que ela nos atinja”.

Em 1925 a preocupação é com a Coluna Prestes que ameaçava valores burgueses e então o governo enviou tropas e armamentos para combatê-los.

Em 1927 a Coluna Prestes já está na Bolívia, derrotada e o relatório do governo do Rio Grande do Norte desse ano há somente a menção da invasão de Mossoró pelos cangaceiros, sobre Apodi não há nada.  O presidente do Estado José Augusto até fala em providências  contra possíveis futuros ataques de cangaceiros, mas ficou só no papel.

Elementar: a Coluna Prestes colocava em risco a propriedade burguesa, o bando de Lampião não. 

Pesquisa: Documentos Potiguares 16, Fundação José Augusto, 1984, Centro Gráfico do Senado Federal.