Dos aboios e do surgimento das vaquejadas. É Getulio Teixeira e dom da memória

Festa de apartação

 

Foto de autor não indent., década 1950. Arquivo desconhecido.

Como dizia o vaqueiro em seu aboio: “Quando chega fim de junho, no final da invernada. Se reúne a vaqueirama em frente a casa caiada, vão correr os campos santos reunindo a boiada, hé boi”. Este fato realmente acontecia na Fazenda Amargoso de Alfredo Teixeira,  e demais fazendas da região. Terminado o inverno era inicio da pega do boi para fazer a apartação. Vaqueiros vindos dos Pocinhos, Mulungu, Várzea Cercada, Boa Vista, Canafístula faziam uma espécie de mutirão para realizarem a pega do boi que era criado em terras soltas.  O trabalho era dividido em tarefas, um grupo seguia para o campo e outro grupo para os locais que tinham retido a agua do inverno para pegar o boi na bebida.  Logo pela manhã, após comerem o desjejum, todos devidamente paramentados, chapéu de couro, perneiras, gibão e guarda peito montavam seus cavalos e iniciavam a lida. Os vaqueiros, homens corajosos, sabiam que o trabalho seria bastante árduo, tinham que enfrentar a macambira, o xique-xique, o espinho da jurema preta e o entrançado do mufumbu, além da ferocidade de alguns animais. Entre os vaqueiros alguns se destacavam, seja pela valentia de correr no mato ou pela habilidade no dorso do cavalo. Já outros gostavam de entoar canções, conhecido como aboio, que expressava o se estado de espirito. O aboio era o retrato do sentimento do vaqueiro, seja o lado sentimental ou com relação a sua vida. Tinha um aboio que demonstrava sua vontade que dizia mais ou menos assim:

 “Minha mãe quando eu morrer,

 Coloque no meu caixão,

 Minha roupa de couro

 Chapéu, perneira e gibão

 Para brincar com São Pedro

 Na festa de apartação”.

Outros cantavam um aboio pensando na mulher desejada, lembro-me de um que dizia assim:

 “Menina me dê um beijo

 Só não quero no pescoço

 Quero no bico peito

 Que lugar que não tem osso

 Para quando eu ficar velho

 Me lembrar que já fui moço”

A pega do gado geralmente tinha inicio na segunda feira e estendia-se até a sexta feira, ficando o sábado e o domingo para a grande vaquejada, os dias mais esperados por todos. Era uma vaquejada diferente, não tinha venda de senha. Todos que ajudavam no trabalho tinham direito a correr o boi. Enquanto isto, no alpendre da casa grande ou em um pequeno armazém o forró corria solto, um sanfoneiro que podia ser Seu Tampa, Salgadeira, Carlos Salgadeira ou qualquer outro, o importante era arrastar os pés.

 Entre os vaqueiros que conheci os que mais se destacaram foram, Chico Ventura, Albino Barbalho e seu cavalo Destino, Chico Machuíba, Lourival da Boa Vista, Anselmo Medeiros, Chico de Vital, todos homens de coragem e destemidos. Esta história que narrei é uma singela homenagem a todos eles.

De Getulio Teixeira [getulioteixeira50@yahoo.com.br] para o baú de Macau