Mossoró, Lampião e o relatório do gerente do Banco do Brasil. Era 1927. [4/7]

Medidas de precaução

Trecho do relatório da agencia local do Banco do Brasil S.A. referente ao primeiro semestre de 1927, no qual estão feitas descrições do que foram os dias de terror para esta região em virtude dos ataques dos bandoleiros de Lampeão a Mossoró.

Medidas de precaução: Depois do ataque da cidade de Apody, começou só então a ser notada a falta de carinho com que é tratada esta cidade na parte concernente ao seu policiamento. Cidade de cerca de 15 mil almas, com uma filial do Primeiro Estabelecimento de Credito do Paiz, uma Collectora Federal e muitas outras repartições publicas, com um numero considerável de operarios, applicados no serviço de fabricas, prensas e no prolongamento da E. Ferro de Mossoro, onde trabalha gente de toda a parte e espécie, situada, podemos dizer no sertão, e ameaçada constantemente de ataques de bandoleiros, não podia continuar a ser policiada por meia duzia de soldados, muito embora para tal concorresse o reconhecido espirito ordeiro de sua população. Com o louvável objetivo de conseguir fosse reforçado o numero de praças de policia estadoal aqui destacadas, congregaram-se todas as pessôas de responsabilidade da cidade e resolveram appellar pra o Exmo. Snr. Governador do Estado e Snr. Chefe de Policia, expondo os motivos que justificavam perfeitamente essa providencia, sobrelevando-se dentre esses o da possibilidade de ser esta cidade atacada inesperadamente por grupos de bandidos. Aquellas auctoridades, alegando razões de ordem financeira e refutando o receio de que todos aqui residentes se achavam de um possível ataque de bandoleiros, animava-os, afirmando que se não havia ainda registrado o facto de uma cidade littoranea e do tamanhão desta ser atacada, mas que no momento não os podia attender.   

Desilludidos de qualquer providencia por parte do Governo Estadoal, resolveram aquellas mesmas pessôas convocar uma grande reunião para ventilar medidas atinentes á defesa dos bens da collectividade, que importaria na da propria cidade. Pelo Gerente desta Filial foi alvitrado a idéa de uma subscripção no commercio local para a acquisição de armas e munições, destinadas exclusivamente ao alludido mister, concorrendo as firmas segundo os seus recursos e extensão de bens a defender, idéa essa que foi immediata e unanimemente acceita.  Para presidente da Commissão que se encarregaria dessa incumbencia foi lembrado, por nímia gentileza das pessôas presentes á reunião, o nome do primeiro signatário do presente relatório, Na mesma occasião ficou tambem resolvido que armas e munição, depois de passado o perigo em que se encontrava a cidade, seriam distribuídas proporcionalmente á quota de cada subscriptor 1], comprometendo-se cada um a não se desfazer das mesmas, sob qualquer motivo, como tambem a trazelas limpas e tratadas, afim de que, em casos futuros e idênticos, a cidade pudesse contar com algum recurso effeciente para a defesa.

A Comissão apurou cerca de Rs.23:000$, concorrendo esta Filial com a quantia de Rs.2:000$ e as firmas Tertuliano Fernandes & Cia, M.F. do Monte & Cia e Alfredo Fernandes & Cia, com 3:000$ cada uma.

Com o producto apurado se conseguiu adquirir na capital do Estado do Ceará, cerca de 50 armas entre fusis e rifles, e approximadamente 9.000 tiros, que constituíram, incontestavelmente, o factor máximo do exito da brilhante, resistencia offerecida por esta cidade á malta de facínoras que a atacou em 13 de junho do corrente anno.

A nota é do baú de Macau:

Na obra Lampião em Mossoró, de Raimundo Nonato [edição fac símile do Sebo Vermelho Edições, 2012] há menção sobre o assunto: “Como é de domínio público, em sessão realizada na Intendência Municipal, no dia 12 de referido mês, ficou assentado que as armas adquiridas de pelo comércio de Mossoró, continuassem em poder dos Srs. Tertuliano Fernandes & C.,  M.F. de Monte & C., Saboia Filho, gerência do Banco  o Brasil e Alfredo Fernandes & C., juntamente com a munição de que se faziam acompanhadas, essas armas de propriedade particular”. [p.79]