Mossoró, Lampião e o relatório do gerente do Banco do Brasil. Era 1927. [5/7]

Ataque a Mossoró

Dividido em 7 posts, o baú de Macau está publicando neste  dezembro  o chamado Trecho do Relatório da Agencia Local do Banco do Brasil S.A. referente ao primeiro semestre de 1927, no qual estão feitas descrições do que foram os dias de terror para esta região em virtude dos ataques dos bandoleiros de Lampeão a Mossoró.

Ataque a esta cidade: Teve por principal causa a falta de policiamento aqui existente, levado ao conhecimento dos bandidos pelos innumeros espiões que espalham, com antecedência, pelas cidades, villas e povoados que pretendem atacar. Para favorecer esse serviço, em que os bandidos são exímios estão as próprias condições da cidade: de commercio intenso e de grande transito  de comboios de toda a parte. A fama de riqueza de que goza esta cidade em todos os altos sertões nordestinos e o reconhecido espirito de ordem e de retrahimento da sua população também foram factores poderosos nos animo dos bandidos para empreenderem a audaciosíssima empresa do ataque levado a effeito. Como este se verificou, relataram a maioria dos jornaes dessa capital, com grande minudencia. Apenas diremos que não foi surpresa e com exito para os assaltantes devido á inhabilidade destes. Em 12 de Junho ultimo, isto é na véspera do ataque, ás 12 horas do dia, segundo ás ultimas noticias recebidas, suppunha-se  o grupo a 24 leguas daqui, quando o mesmo já se encontrava apenas a 7. Effectivamente, o portador conduzindo a carta do sogro do Gerente desta Filial, aprisionado pelo perigoso grupo no lugar denominado “Sant’Anna”, quando ia em busca de sua esposa que se encontrava em uma fazenda ameaçada pelos facínoras, na qual aquelle Snr. communicava achar-se aprisioneiro do “Capitão Lampeão” e pedia a remessa de 21:000$ exigidos por este para o meu resgate, foi que determinou exatamente o perigo imminente a que a cidade estava ameaçada. Desde logo providenciou-se a defesa da cidade.

O grupo assaltante estava tão seguro do exito da empresa que chegando a S. Sebastião, pequena localidade, distante daqui cerca de 7 leguas, ás 10 horas da noite, preferiu ahi pernoitar, quando poderia ter continuado a viagem e atacar a cidade ás primeiras horas do dia 13.

O perigoso grupo era composto de 52 homens e reunia os nomes mais fallados e execrandos do banditismo do Nordeste, como sejam: Lampeão, Sabino, Moreno, Jararaca e Massilon. Pela vez primeira se viu congregados para o mesmo fim quatro chefes de grupo. Com exceção de 4 ou cinco bandidos armados de rifles, todos os demais conduziam fusis mauser typo 1908, bem municiados, carregando os mais alentados cerca de 500 tiros. Todos vinham bem montados, trazendo até muitos animaes de reserva. O grupo compunha-se de homens de rara coragem ao mesmo tempo exímios atiradores, tanto de frente como de costas. Vinham perfeitamente informados acerca das pessôas de maiores responsabilidades da cidade e atacaram de preferência, com o premeditado fito de aprisionar, como demonstra a planta illustrada da cidade que ao presente annexamos, as residências do Gerente desta Filial, Prefeito da cidade e a do Gerente da E.F. de Mossoró.

No oitão direito da residência do Gerente desta Agencia, justamente onde foi travado o mais cerrado de todos os tiroteios, cahiram feridos mortalmente os facínoras “Colxete” e “Jararaca”, sendo que aquelle teve apenas alguns segundos de vida e este alguns dias.

O bandido “Jararaca” era o terror dos sertões de Pernambuco, sendo considerado pela policia desse Estado como muito mais perigoso e perverso do que o próprio “Lampeão”. Por isso o Chefe de Policia daquele Estado, logo que soube do aprisionamento do citado facinora, apressou-se em enviar ao Prefeito desta cidade os mais effusivos parabens, muito embora não acreditasse desde logo na veracidade das noticias, daqui transmitidas avisando aquella occorrencia, dada a grande e reconhecida valentia e sagacidade do referido cangaceiro, que nunca se deixou apanhar em território pernambucano, onde era grandemente perseguido.

O ataque á cidade foi levado a effeito precisamente ás 4 ½ horas da tarde, depois de haverem dirigido duas cartas ao Prefeito da cidade exigindo a quantia de Rs. 400:000$000 para desistirem do intento.

Esses documentos foram também transcriptos na integra pelos jornaes dessa capital.

O tiroteio durou cerca de 2 horas, retirando-se os bandidos precipitadamente, ante a intensidade dos disparos das trincheiras da cidade e depois que viram tombar dois de seus companheiros mais audazes. Repellidos, tomaram os facínoras a direcção da fronteira cearense, que fica a poucas leguas daqui.

Desde que entraram em território norte-rio-grandense, pelo município de Luiz Gomes, até o se passarem para o cearense, os bandidos commeteram toda sorte de ignominias: roubos, depredações, incêndios, surras, estrupos e mortes.

O aprisionamento de pessôas, sob ameaça de morte, caso os parentes e amigos destas não remettam a importância fixada, que varia segundo as informações que teem sobre as pósses dessas mesmas pessôas, constitue uma das mais proveitosas fontes de receita desses nefandos grupos.

Logo que os bandidos que atacaram esta cidade se acharam em território cearense, por ordem terminante de “Lampeão”, o chefe supremo do grupo, cessaram os actos cannibalescos. Da cidade de Limoeiro, no Estado do Ceará, por onde não tencionava passar o grupo, que se encontrava distante da mesma cerca de 2 léguas, foi enviado a este um portador avisando que poderia entrar na referida cidade porque ao grupo nada acontecia. À vista de tão gentil convite o grupo não se fez esperar e para lá se dirigiu, entrando naquella cidade aos gritos de vivas ao Padre Cicero e ao Governador daquelle Estado, depois de todos os do grupo se haverem enfeitados de fitas de sêda de todas as cores que roubaram durante a travessia deste Estado.

Na cidade de Limoeiro os bandidos não só foram bem recebidos como também banqueteados pelo respectivo Prefeito e outras autoridades locaes, havendo por essa occasião, o que parece incrível, o congraçamento da Lei com o Banditismo.

Segundo o depoimento do bandido “Jararaca”, que ao presente annexamos, as armas e munição do que dispõe o grupo presentemente foram lhe fornecidas, ao tempo da passagem dos rebeldes [1] pelos Estados Nordestinos, pelo falecido Deputado Federal – Snr. Floro Bartolomeu, encarregado pelo Governo da Republica de então para armar gente para combater aquelles desviados da Lei.

Ao que se diz, essas armas e munição, depois da passagem dos rebeldes, não puderam ser recolhidas pelo Governo Federal, sob allegação de extravio, sendo certo existir grande quantidade em poder de vários “Coroneis”, chefes políticos de localidades no interior do E. Ceará, que dellas se vão agora utilizando, fornecendo aos bandidos em troca de avultadas quantias extorquidas por estes das populações indefesas dos altos sertões nordestinos.

A nota é do baú de Macau

[1] Os “rebeldes” a que se refere o gerente Jaime são os revolucionários da Coluna Prestes. Para o historiador Leôncio Basbaum, autor da História Sincera da República, obra importante para os estudiosos da história do Brasil, “Nenhum outro movimento político-militar teve no Brasil a importância da Coluna Prestes, não pelos seus efeitos imediatos na estrutura econômica e política do país, que na realidade não teve, mas pelos efeitos políticos remotos que dela resultaram”.  … e surgiu como um prolongamento do 5 de julho de 1924 a 28 de outubro do mesmo ano, no Rio Grande do Sul. Eram chefes e inspiradores dessa insurreição os generais Honório de Lemos, Zeca Neto e Leonel Rocha, cujas forças não tardaram a dispersar-se. O Capitão Luiz Carlos Prestes, que fazia parte desse grupo conspirativo, comandava o Batalhão Ferroviário que no momento azado sublevou, pondo-se à sua testa. Daí, sempre lutando, enveredou para o Norte, onde encontrou os remanescentes da Coluna Paulista, Juarez, Siqueira Campos, João Cabanas, João Alberto, aos quais, Miguel Costa, já promovido a General e comandante da Coluna por Isidoro, foi distribuindo comandos de destacamentos. Daí por diante, durante cerca de dois anos, a história da Coluna é uma seqüencia de pequenas batalhas, de hábeis manobras militares em que não se tratava mais de combater até a vitória final, mas apenas de defender-se do inimigo sempre em superioridade, dos ataques dos jagunços às ordens dos coronéis, de sobreviver, enfim, mantendo acesa chamar evolucionária. A 3 de fevereiro de 1927, depois de haver percorrido 36 mil quilômetros através de quase todos os Estados, sofrendo falta de alimentos, munições e roupas, internou-se a Coluna na Bolívia, onde se dispersou.

Com o título Marcha da Coluna Prestes, do livro  Vida de Luiz Carlos Prestes o cavaleiro da esperança, o escritor Jorge Amado fala sobre a presença da Coluna em solo potiguar.

Também no livro Luís Carlos Prestes e Mossoró, de Vingt-Un Rosado, João B.C. Rodrigues, Ozelita C. Rodrigues e Raimundo Nonato, há bom referencial para pesquisa sobre o assunto.