“Hora feliz”: eram os setenta em Macau

 

Seu Santos, década de 1970, Praça da Conceição em Macau

Sempre é tempo para recordar. O hoje “inglesmente” chamado de “happy hour”, em Macau,  na década de 1970, era na Praça da Conceição. Fátima, Maria do Rosário e muitos outros jovens encontravam-se informalmente todas as tardes na Praça da Conceição. Fátima Marcolino com sua sensibilidade moldada no delta luminoso de Macau nos presenteia com um texto que fala daquelas tardes felizes. São recordações de amor, amizade, companheirismo e solidariedade, tudo o que nos falta hoje, nesta sociedade do ter e não do ser.  O texto é pura poesia!

 

  “Perdido seja para nós aquele dia em que não se dançou nem uma vez! E falsa seja para nós toda a verdade que não tenha sido acompanhada por uma gargalhada!”  (Nietzsche)

De todas as coisas que passaram na minha juventude existe uma que ecoa nos meus ouvidos e até parece uma fantasia embalada pelas lembranças de dias deliciosamente vividos cheios de amigos e da cordialidade que existe nos jovens.

Existia entre eles um que era especial. Certa vez me puxou para dançar e rodopiamos alguns poucos passos no salão e a timidez não me deixou concluir a dança. Essa frase de Nietzsche me faz lembrar que esse fato jamais irá sair do meu pensamento. Nesse momento tudo era tão real, cada palavra, cada gesto e cada sentimento. Agora entendo o porquê daquela gargalhada tão intensa e vibrante quando eu dizia não acreditar naquelas verdades.

Depois disso tive bons dias, mas nada se compara àqueles em que se espera num determinado lugar na mesma hora e quando não se tem mais nada a fazer do que encontrar alguém para um longo diálogo daqueles que a gente nunca quer ir embora e sempre tem assunto para uma boa conversa. É um livro lido no momento, o comentário de um filme, uma notícia de jornal, a política local entre outras informações. Mesmo tendo muitas recordações, a gargalhada escrachada é sempre o que me remete àquele jovem.

Gosto de pensar que esses dias não me foram perdidos, aproveitei o que pude das amizades, da pureza desses momentos, do vento de agosto batendo nas pernas e nos empurrando fortemente para frente como se quisesse mandar correr para o lugar de sossego no banco da praça à tardinha, com um bando de andorinhas em revoada buscando lugar para dormir na torre da matriz. Era tudo muito bom e naquelas horas não sentíamos dor, ódio ou qualquer sentimento forte. Éramos apenas jovens cheios de sonhos e esperanças, os doutores do amanhã sonhando numa cidadezinha interiorana qualquer.

De Fatima Marcolino [fatimafigueiredo2@hotmail.com] para o baú de Macau