O Vagonauta [poesias]

Autor: Fagundes de Menezes

Obra: O Vagonauta [poesias], Livraria Editora Gol Ltda, 1969, Rio de Janeiro

Canção para Macau   [p. 7 e 8]

Sou velho como o teu pôrto

esperança obstruída

maldição de tua vida

pacientemente urdida

com lama, areia e marisco.

 

Sou velho que nem a cruz

de madeira corroída

dormindo sob os olhares

da Virgem da Conceição.

 

Sou velho como a tristeza

de Seu Miguel Sacristão

paciente orquestrador

de repiques e finados.

 

Sou velho como as miragens

castelos imponderáveis

além do mangue e do sal.

 

Sou velho como as galeras,

buques, escunas, iates

Fantasmas constrangedores

esfumados no alto-mar.

Sou velho como os moinhos

palhetas aposentadas

entre cristais e levadas.

 

Sou velho como as salinas

água-de-grau corruptora

de mãos e pés desnutridos.

Como os baldes geométricos

de borda escorregadia,

moldura feita de espumas.

 

Sou velho como os acordes

dos violões seresteiros

exumadores de sonhos

tecidos na solidão.

 

Sou velho como o farol

da praia de Alagamar

olheiro atento das vagas

de marujos e veleiros.

 

Velho como tuas casas

tristes, de parede-meia,

acolhida e humildade

remanso de antepassados

punhal ferindo a memória

distância, bruma e saudade.

 

A ilha submersa