Adeus companheiro, adeus Camarada!

“Eu poderia suportar, embora não sem    dor,    que    tivessem    morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos.” (Vinícius de Moraes)
Querido(a)s amigo(a)s:

Minhas lágrimas de tristeza se transformaram em palavras. Ei-las:

Este Natal de 2010 foi o mais triste em toda a minha vida. E, definitivamente, nunca mais será o mesmo de hoje em diante.

Enquanto Benito lutava pela vida, todos os seus amigos passaram a noite natalina apreensivos e impotentes, contando as horas aguardando uma reação em seu estado de saúde.

Muitas palavras podem resumir Benito: além de sociólogo, professor, escritor, poeta, pesquisador e bibliófilo. Estes atributos revelam o incansável e brilhante intelectual que sempre foi.

Mas não podemos esquecer sua generosidade, sua fidelidade aos amigos, sua solidariedade aos mais humildes e seu compromisso com as causas sociais do seu povo.

Seu despreendimento com as coisas materiais era outro traço de sua personalidade forte, além do seu jeito considerado por alguns até “anti-social”. Até no modo de vestir era simples e despojado. Ele sempre viveu de forma muito autêntica. Detestava as convenções e hipocrisias sociais.

Em sua militância política, foi eleito vereador pelo PMDB em Macau em 1982, formando a minúscula bancada de oposição junto com Chico Paraíba, tendo se filiado posteriormente no PCB, partido em que militava muitos dos seus amigos, alguns desde a clandestinidade. Éramos eu, João Evangelista, Juraneide, Celso, seu irmão Vargas, Cláudio Guerra, Elson de Biô, João Vicente, dentre outros que ora não recordo.

Naquele período obscuro da luta contra a ditadura militar e pelo restabelecimento da democracia, sonhamos juntos em transformar o mundo para torná-lo mais justo, mais solidário e mais humano. Essa semente de utopia foi plantada em cada um de nós e ainda hoje a carregamos no peito.

Benito sempre foi uma usina de idéias. Sua inquietação não o paralisava nunca. Estava sempre fazendo planos. Era invejável como se mantinha quixotescamente ativo e criativo em meio a tanta mediocridade a que condenaram a nossa querida terra.

Ultimamente pretendia criar uma biblioteca sobre autores do RN que tivessem obras sobre o nosso Estado. Pretendia, depois, doá-la ao Município de Macau ou a outra instituição. Estava comprando muitos títulos raros pela internet e procurando saber dos amigos quem poderia ajudá-lo em sua nova empreitada.

Sua vasta coleção de livros possui obras raras e da maior importância cultural que precisará ser preservada pela família.

Sua capacidade de trabalho era invejável, apesar de beber quase diariamente. Nunca descuidou da Universidade, que dirigia em Macau com imensa responsabilidade. Poderia ter seguido a carreira acadêmica. Chegou mesmo a começar o mestrado em sociologia, depois abandonado. Mas não conseguia viver longe de sua querida Macau, de onde nunca se afastou até seus últimos dias.

Nosso querido Professor, como todos o chamavam, nunca cuidou da saúde como deveria, levando uma vida um tanto desregrada. Mas sempre viveu fazendo o que sempre gostou: tomando muita cerveja, fumando bastante, ouvindo boas músicas e lendo bons livros.

Antes do advento da internet, em meados dos anos 70, já mantínhamos correspondência epistolar, no início de uma amizade sincera, leal e fraterna que se fortaleceu ao longo do tempo.

Nos últimos anos, sempre que eu ía a Macau, mesmo em minha atividade profissional, o procurava nem que fosse para tomar uma única cerveja apenas. Ás vezes em seu último “escritório” – como eu chamava, na “rodoviária” improvisada na Av. Centenário.

A última vez que o vi foi na tarde de 16.12.2010 em Macau. Ele não aparentava ter nenhum problema sério de saúde, a não ser aqueles normais a quem sempre teve uma vida boêmia como ele.

Tomamos algumas cervejas. Poucas, pois eu tinha de voltar naquele mesmo dia pra Natal. Ele me falou que tinha comprado um presente para Vinicius, meu filho de pouco mais de um ano: um carrinho artesanal. E este presente havia sido danificado, pois “um carai de um pisão sentou em cima dele”, me falou. E deve ter sido em um bar, naturalmente. E “carai” foi o palavrão que ele adjetivou e humanizou em suas várias formas de tratamento.

Tinha combinado com ele de nos encontrarmos em meados de janeiro em Macau, quando eu iria participar de uma audiência. Combinei de levar João Evangelista para passarmos o dia na praia de Camapum ou na Maré Mansa, tomando muita cerveja e conversando. Evidentemente, tomaríamos a saideira na Praça da Conceição em nossa amiga Djane. E ele me prometeu entregar outro presente a Vinicius.

Infelizmente Vinicius não chegou a conhecê-lo e, por ironia do destino, os dois se encontravam no mesmo prédio do Hospital Promater na noite de 23.12.10 em Natal: ele vindo de Macau pra ter a devida assistência médica que nossa cidade ainda nega a seus moradores e Vinicius sendo atendido de uma virose na urgência pediátrica. Mas, com certeza, um dia Vinicius saberá quem foi um dos melhores amigos do seu pai.

Em 26.12.2010, às 17h12m, se calou para sempre a última voz qualificada a se indignar com legitimidade, despreendimento pessoal e coragem pela ética política e contra todo tipo de iniqüidade que ainda teima em existir em nossa cidade de Macau.

Afirmo, sem nenhuma dúvida: Benito foi a principal referência intelectual de toda uma geração de macauenses, ao lado de João Evangelista, hoje órfãos dos seus ensinamentos.

Felizmente, pode realizar um dos seus desejos de generosidade: a doação de seus órgãos para outras pessoas necessitadas – a córnea e os rins, que beneficiaram 4 pessoas.

Longe de ser um simples jargão, mas Benito fará muita falta. A Macau, a quem amava muito, e ao seu povo mais necessitado, excluído e marginalizado, com quem convivia, respeitava, ajudava e sempre foi solidário.

Mas fará muita falta mesmo, principalmente, a todos os seus amigos – de todas as classes sociais – que aprenderam a amá-lo e admirá-lo e que tiveram o privilégio de sua amizade e de sua convivência.

Caberá  aos amigos que ficaram continuar a sua luta. Afinal, não podemos nunca colocar um ponto final em nossas esperanças. E, como dizia poeta, “os sonhos não envelhecem…”.

Enquanto houver injustiça e desigualdade social em nossa cidade e em nosso País, Benito será sempre lembrado por seu exemplo de vida em defesa da dignidade de todo ser humano.

Sentiremos muitas saudades do eterno Imperador da Casqueira!

Adeus, Professor!

Adeus Camarada!

Adeus Amigo!

Marcos Oliveira-dezembro/2010.