O Caçador de Jandaíra

Autor: Manoel Onofre Júnior

Obra: O Caçador de Jandaíra, Clima Editora[Carlos Lima], Edições Clima – volume 61 – 1987, Natal-RN

O frade e o pescador

Certa época era vigário em Macau um frade desses bem barbudos, que tinha fama de mau gênio.  Naquela manhã fatídica, o frade estava batizando na matriz de Nossa Senhora da Conceição. Fila de menino-novo e respectivo séquito, pais, padrinhos e madrinhas, aguardando a vez no batistério. Na cabeça da fila, com um menino nos braços, aquele pescador destoava dos outros pela rudeza doe modos, bem como pela roupa modesta. Quando chegou a vez dele, o frade preferiu batizar o filho do homem ricaço, logo atrás, achando que o do pescador, por ser pobre, poderia esperar. Pois bem, o pescador indignou-se e não teve outra atitude senão largar um murro na cada do frade, que caiu estatelado no chão. Houve aquele rififi, mas não tardou que tudo serenasse. Como não poderia deixar de ser, a cena tornou-se o “prato do dia” nas rodas de conversa macauenses. Interessante é que com aquele gosto bem provinciano de tomar partido, os macauenses davam razão ao pescador. O frade logo soube. Soube e danou-se no mesmo instante. “Ah! Não podia mais ficar naquela terra, ia embora dali para sempre”. Dito e feito. No outro dia, bem cedo, atravessava, de canoa, com os seus pertences, o rio Açu, deixando Macau. Mas, antes de fazer a travessia, tirou as sandálias e batendo-as, uma de encontra a outra. “para não levar daquela terra nem a poeira, disse por entre dentes”:

Canoa, sal, peixe seco

É de Macau a trindade.

Ciência, moral e virtude

São a sua odiosidade.

Como se vê, o frade também cometia suas quadrinhas, até mesmo nos momentos críticos. O fato é que , daí em diante, nunca mais se teve noticia dele em Macau. Só restou a lenda: pessoas relacionavam a sua figura com a ventania amarela de poeira, que começou a aparecer nas tardes macauenses bem na rua da frente, justo de onde partira o frade. Vento incômodo aquele, que levantava a saia das moças, batia portas e janelas e punha cisco nos olhos dos passantes. Era a maldição do frade – dizia-se. E alguns afirmavam ser aquela a mesma poeira das sandálias eclesiásticas…

– Esta história me foi contata por Vicente Serejo.

Páginas 36 e 37