Mossoró, Lampião e o relatório do gerente do Banco do Brasil. Era 1927. [7/7]

Medidas que se impõem

Dividido em 7 posts, o baú de Macau está publicando neste  dezembro  o chamado Trecho do Relatório da Agencia Local do Banco do Brasil S.A. referente ao primeiro semestre de 1927, no qual estão feitas descrições do que foram os dias de terror para esta região em virtude dos ataques dos bandoleiros de Lampeão a Mossoró.

Medidas que se impõem: Muito embora tenha contra si a precariedade da situação financeira do Estado, não podemos deixar de reconhecer as providencias solicitas e eficientes tomadas pelo Exmº. Snr. Governador do Estado, logo que teve certeza que o bando sinistro de “Lampeão” para aqui realmente se dirigia. Reforço de praças, armas e munição foram remettidas de Natal á toda a pressa e a tempo entrarem em acção. Afigurou-se a todos, entretanto, que da mesma fórma, não procedeu o official  commandante  das forças Estadoaes do interior do Estado, deixando   que os bandidos atravessassem este de oéste para léste, sem que lhes puzesse uma rectaguarda, uma vez que para isso dispunha de elementos, o que certamente teria forçado o grupo a procurar a fronteira cearense, perto da localidade de Itahú, neste Estado, evitando assim o ataque a esta cidade.

Agóra que já ficou demonstrado praticamente que esta cidade está exposta a inopinados ataques de bandidos [1], julgamos oportuno que essa Matriz, trazendo tambem a sua contribuição aos justos reclamos da população desta cidade, se dirija ao Exmº Snr. Governador e solicite deste a permanência nesta cidade, que por todos os motivos faz jús a isso, de um contingente policial nunca inferior a cem praças, afim de garantir não só a população da cidade, como tambem os grandes valores aqui existentes, destacando-se francamente dentro esses os da Agencia do Banco aqui existente.

Si essa providencia indispensavel não fôr quanto antes tomada, não podemos assegurar a defesa dos valores á nós confiados, porque não estamos livres de termos, inopinadamente, ás caladas da noite, as nossas residências assaltadas e, sob ameaça de morte, extensiva ás nossas famílias, sermos obrigados, pela violência, a tudo entregar a esses audaciosíssimos facínoras, ou mesmo assassinados depois de acquiercermos aos seus desejos, dado o espirito de malvadez e perversidade que caracterizam esses monstros.

Desde o ataque á cidade de Apody até o presente momento que a cidade, amiudadamente é sacudida por noticias alarmantes e inquietadoras, principalmente, á noite, tornando-se, portanto, a vida nessas condições em verdadeiro martyrio, notadamente, para aquelles que além das responsabilidades  sacrossantas da família, se veem objectivados pelas decorrentes dos cargos que occupam.

Si a providencia da permanência aqui de cerca de 100 praças, que é inicialmente extrategica, devido a parte dessa força poder ser, de um momento para outro, jogada com rapidez no interior do Estado, contando para isso com o transporte rápido que oferece a E.F. Mossoró, não fôr levada a effeito, não sabemos como o Banco sahir deste doloroso dilema: ou o Banco, em face da situação insegura e afflictiva da cidade, fecha a Filial que aqui mantem, ou insiste pela sua permanência, ficando com a responsabilidade moral e material do que venha a occorrer  com os seus funccionários e respectivas famílias e dos prejuízos decorrentes que essa falta de garantias pode determinar relativamente aos valores pertencentes ou sob a guarda da Filial desta praça.

Illustrando as occorrencias a que vimos de nos reportar, juntamos ao final deste documento o sequinte:

Quinze fotografias,

Depoimento do bandido “Jararaca”

Um planta illustrada da cidade de Mossoró,

Dois exemplares do “Correio do Povo”, que se edita nesta cidade, respectivamente, dos dias 24 e 31 de Julho do corrente anno, contendo  a entrevista concedida pelo Tenente Joaquim Teixeira de Moura, da Policia norte-rio-grandense e as declarações do facinora “Bronzeado”, um dos do grupo de atacou a cidade de Apody, em 10 de Maio ultimo.

 

Transcrito do Livro C 47 – correspondências confidenciais 2, folhas 55 a 65

A nota é do baú de Macau:

[1] Solidariedade dos macauenses.  Na obra Lampião em Mossoró, Raimundo Nonato transcreve vários telegramas e cartas que foram enviados ao povo de Mossoró após o frustrado ataque do bando de Lampião. De Macau, dentre outros, destacamos:

Macau, 18-6-1927, Ilustre amigo Rodolfo Fernandes. Salve, Mossoró! Na sua pessoa felicito ao bravo povo mossoroense que, com coragem e bravura soube repelir a bala os bandidos chefiados pelo famigerado Lampião. Sendo certo que vocês conseguiram extrair o veneno da Jararaca é muito justo que depois lhe deem liberdade… Eu penso assim. Sempre seu amigo. Francisco Araújo.