Das belas recordações de Chico de Neco Carteiro: O crepúsculo de uma rua.

 

A antiga Praça João Pessoa em Macau. Agora Praça Monsenhor Honório

Lamarão, Rua da Frente, Cia Comércio e Navegação, Lloyd Brasileiro, Cia Costeira e muitas outras coisas também existiam em Macau e até a Praça João Pessoa, que depois o fervor dos católicos  a rebatizaram  de praça  Monsenhor Honório, o santo de Macau.

Belíssimas as recordações de Areia Branca do amigo Chico de Neco Carteiro.

 

O crepúsculo de uma rua

 

Companhia Comércio e Navegação, Salicultores de Mossoró, Macau Ltda., F. Souto, Cooperativa de Salineiros Norte-rio-grandenses, Mossoró Comercial, Lloyd Brasileiro, Navegação e Comércio Ltda., Companhia Nacional de Navegação Costeira e Wilson, Sons eram responsáveis pelas transações comerciais entre Areia branca e muitas outras firmas, sediadas na maioria dos estados litorâneos do Brasil. Dessa forma, de quase tudo que acontecia em Areia Branca a Rua da Frente era o palco principal.

Se, em dias de folga, os tripulantes dos navios desembarcassem para uma visita à cidade, a Rua da Frente estava ali para recebê-los de braços abertos.

Se procedentes de Mossoró e, após a travessia da maré, no Tirol, na Rua da Frente, os passageiros eram esperados festivamente.

Se fosse dia de chegada dos hidroaviões, da Panair ou da Condor, o povo se comprimia na Rua da Frente para apreciar a indizível beleza das suas aeronaves amerissando na maré.

Se o Tupã, o San Eduardo, o Ubajara, o Santa Luzia, o Maria Esterlina, o Avaré, o Oscar Artur e outros iates entrassem de barra adentro, da rua da Frente os espectadores vibravam com as belas manobras feitas pelos mestres desses veleiros.

Se havia vapor no lamarão, na Praça João Pessoa, na Rua da Frente, os estivadores recebiam ordem para embarcar nos rebocadores ou lanchas, a fim de executarem suas tarefas a bordo dos cargueiros.

Era na Rua da Frente, antes da salina de Manoel Bento, que ficava aquele sobradinho branco, residência do casal José Filgueira e dona Maroca, e dos filhos Fernando, Carmem, Aldemar Waldemar, José e Jorge. Ali também funcionou a Escola de dona Maroca.

Era, também, na Rua da Frente que existiram dois quarteirões: de um, faziam parte o Lloyd Brasileiro, o escritório do despachante aduaneiro, o antigo prédio da Alfândega e o imponente prédio de dois pavimentos pertencente à família Trajano; o outro se compunha da firma Mossoró Comercial, de um casarão onde dona Selé se estabeleceu com uma pensão, além de casas residenciais. Demolidos há algum tempo.

Era  no chão da Rua da Frente, imediações da firma F. Souto, hoje escritório da Codern, onde se estendiam dezenas e dezenas de metros de lona, a fim de serem confeccionados panos para os barcos veleiros.

Era do patamar da igreja, na Rua da Frente, onde se aglomerava a turma dos teimosos. Estes, vislumbrando somente a pontinha dos mastros, diziam o nome da embarcação, ainda encoberta pelo morro do Pontal.

Depois, veio a construção da BR-110, culminando com a desativação do Trem Mossoró/Porto Franco; depois a transformação de barcaças a vela em alvarengas motorizadas, que não faziam as belas manobras dos barcos veleiros.

Depois, surgiram novas alvarengas  com capacidade de conduzir mil toneladas, substituindo as que carregavam somente duzentas toneladas.

E depois? Chegamos ao hoje. E, na memória dos saudosistas, o retrato de tudo isso que aconteceu.

Páginas 127/129 da obra Becos, ruas e esquinas, de Francisco Rodrigues da Costa, Sarau das Letras Editora Ltda., Mossoró, 2012, ISBN: 978-85-60650-37-8