As rosquinhas do Seo Nino

As rosquinhas do Seo Nino

 

Lá vem Seo  Nino, o véio da rosca! Grita o menino.

É Seo Tino, corrige o outro.

Não! É Seo Nino! E a teima continua e ganha o beco.

Tá duro ou tá mole? Grita um deles para Seo Nino.

Seo Tino responde: Tá bem durinho,  chega pula!

Era Seo Tino para a família, mas Seo Nino para toda a Macau. E naquelas tardes quentes com o Nordeste soprando sem parar ouvia-se o canto de Seo Nino:

Vai passando a alegria! Vem alegria! Alegria! Alegria!

E então corria meninos, moças, velhas e velhos. E corria até “aquelas que se queixavam de ser  moça”, como dizia Seo Nininho que foi aguadeiro de Barreiras, todos em busca das deliciosas rosquinhas que Seo Nino fabricava e vendia.

E foi assim. Seo Tino trabalhou boa parte da vida nas salinas até adoecer e se aposentar. Ficar parado não aguentou e então Vilani, sua vizinha e amiga ensinou-lhe o segredo da rosquinha de polvilho. Foram oito dias de aulas seguida até ele aprender.

E então,  às 3 da tarde, ainda com o Nordeste soprando forte saía Seo Nino pela cidade a vender rosquinhas de polvilho. Vendia rosca, raiva e cocorote que eram feitos de goma e coco, carregado num balde de feira e num saco plástico. 

Em casa dizia para a  mulher:  —  Lave o meu balde bem lavado para as meninas ver!

E sua mulher respondia sorrindo:  — É para a quengas é?

E ele dizia: — Para as quengas não! Para as meninas! E sorria.

Vivia sorridente com seus pequenos olhos azuis.  Um açuense que morou 50 anos em Macau. A saúde precária lhe trouxe para Natal onde morreu em 2007, mas a família atendeu seu pedido e foi-lhe enterra-lo  em Macau, “ o lugar onde fui mais feliz na minha vida”.