Areia Branca

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Mais um desembargador

Francisco Rodrigues da Costa – escritor

Francisco Rodrigues da Costa Becos Ruas e EsquinasConvite aceito, lá estava ele visitando Areia Branca. A leitura do livro Saudades, como acontecera ao desembargador paulista de Mogi das Cruzes, Mario Antônio da Silveira, o animara a se deslocar até à nossa cidade.  

E, naquela manhã dominical, ciceroneado por este rabiscador do passado, o doutor Manoel Onofre Júnior percorria as ruas da cidade litorânea. O visitante constatava entusiasmado tudo o que lera nas obras deste filho de Neco Carteiro.

Não fora ali ver As Minas do Rei Salomão, nem as Muralhas da China, tampouco Os Jardins Suspensos da Babilônia. Mas viu planícies e mais planícies de solo salino; não deixou de ver “cavalos mecânicos” sugando do subsolo o óleo bruto que se transforma em petróleo, fazendo do Rio Grande do Norte o primeiro produtor terrestre do Brasil; viu paredões e paredões de pedras represando águas que, alcançando certo grau de temperatura, logo se transforma no produto para a indústria química ou mesmo no simples e indispensável tempero de pratos deliciosos.

Viu a Praça Dix-Sept Rosado que já fora Desembargador Silvério, e, muito antes, tivera a denominação primitiva de João Pessoa, onde, no final dos anos 30, ou início da década seguinte, “Cascudinho”, que se tornaria o famoso Luiz da Câmara Cascudo, discursara defendendo as cores do seu integralismo, cujos seguidores eram apelidados de “galinhas verdes”.

Viu as ruas retilíneas, bem planejadas, de onde se avista o começo estando no fim, e, este, estando no início delas. Aí, chamei a atenção do meu convidado: “Na minha infância e juventude eu ouvia falar que Areia Branca era tão bem esquadrinhada quanto Fortaleza no Ceará e Belo Horizonte nas Minas Gerais”.  

Mostrei-lhe a Rua da Frente que, com a Rua do Meio, os seus fundos formam o Beco da Galinha Morta, logradouro cuja popularidade já se estendeu por terras de Além Mar. Da praia de Upanema, viu o Porto Ilha, por onde se escoa a produção de sal extraído das salinas de Mossoró, Areia Branca e Macau. Viu as alvarengas de ferro que substituíram as românticas barcaças de madeira. Viu esquinas famosas, dentre às quais cito a da casa de Manoel Bento, onde, ainda frangote, Faustinho me disse: “Quero ser ministro quando crescer”. E foi. Galgando, inclusive, a presidência do Tribunal Superior do Trabalho.

Pela exiguidade de tempo, deixou de ver a Ponta do Mel. Dali, do seu topo, olhando a beleza da praia, um poeta areia-branquense, o saudoso Nilo Oliveira, instado a fazer uma poesia, improvisou: “Tá vendo aqueles coqueiros/ plantados à beira-mar?/ são estátuas de guerreiros/ que o tempo não quis matar/ e as palmeiras veladas/ são índias apaixonadas/ pelos guerreiros do mar”.

E, assim, o desembargador Manoel Onofre Júnior, em companhia deste cicerone de momento, visitou Areia Branca, das poucas cidades do Rio Grande do Norte, que não havia conhecido.

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