O nosso lixo de cada dia

Nos idos de 60, menino calças curtas em Paraguaçu Paulista e morador da periferia, ouvia freqüentemente, os adultos ordenarem: Menino! Jogue isso no mato, pois é coisa que não presta!

E o mato era assim o depósito de tudo que descartávamos naquela época, o que não era muito, pois, além do consumo restrito em razão das condições financeiras, as indústrias daquele tempo não inundavam a sociedade com a quantidade de embalagens e produtos descartáveis como agora. O que consumíamos era quase tudo natural. O leite era distribuído pelo leiteiro numas garrafas bonitas, de boca grande ou então nas vasilhas de lata ou alumínio. O pão vinha embrulhado em papel, o chamado papel de pão e nos açougues a carne vinha sangrando nos suplementos literários dos jornais. Refrigerante em garrafa de vidro [casco], cerveja também.

E ainda tinha o Ceguinho que saia pela cidade com a carroça puxada por um cavalo e que comprava cacos de vidro, garrafas, ferro, alumínio e cobre, fazia a alegria das crianças que faturavam uns cruzeiros e prestava um grande serviço para a não poluição da minha cidade.O plástico e seus semelhantes – as caixinhas longa vida, por exemplo – – ainda não haviam aparecido para poluir as cidades e campos.

No começo dos anos 80 cheguei em Macau que não tinha mato, mas tinha um belíssimo rio/maré. E foi uma das primeiras frases que ouvi, morando numa casa que ficava defronte ao rio/mar:Menino! Bote isso na maré que é coisa quenão presta!Um adulto ordenando a uma criança que jogasse na maré um brinquedo quebrado, de plástico. Só que agora, o plástico e seus semelhantes já inundavam cidades, campos, rios e mares, nas maisdiferentes embalagens e utilizações. E então, o lixo que polui Paraguaçu lá no interior paulista é o mesmo que polui Macau no litoral nordestino.E os fabricantes, os da matéria prima do plástico, o do plástico, o das embalagens dos produtos e os dos produtos que usam o plástico e seus semelhantes como embalagem, nunca se preocuparam com o destino final desse material poluente. Nem os outros fabricantes e comerciantes de produtos se preocupam.

E aí, sobrou para toda a sociedade. O lucro é privado, mas o prejuízo que o material das embalagens e dos produtos [pilhas, peças de eletrônicos, etc.] provoca no meio ambiente foi socializado: paga toda a sociedade.  É o que no jargão dos economistas se chama de externalidade, ou seja, não temos nada a ver com isso, pois aindanão sabemos o custo da poluição dos nossos produtos e nem está definido a propriedade dos mesmos. A chamada imperfeição do mercado justifica tudo e as gerações futuras que se danem! É assim mesmo que empresários e seus executivos pensam: que se dane o mundo!

O capitalismo para se manter vivo, destrói força produtiva. O ritmo é cada vez mais alucinante, pois a concorrência exige um ritmo alucinante. Veículos, televisão, aparelhos de som, celulares, tênis, tudo é substituído num piscar de olhos. A preocupação é o lucro. Vender e realizar o lucro. Cada vez mais lucro. É assim que funciona. Logística reversa é coisa para maluco verde dizem os executivos das grandes empresas poluidoras que não se preocupam com o lixo que produzem. E em Macau, a sentença prolatada pela justiça em 2005, determinando a construção de equipamentos de esporte e lazer no antigo lixão do Maruim, ainda não foi cumprida. Movida pelo agitador cultural João Eudes Gomes em 2000, contra a prefeitura de Macau,  a ação está prestes a completar dez anos. É muito tempo para uma ação ambiental.

Claudio Guerra, é graduado em História pela UNESP [janeiro de 2010]