Lua cheia

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Lua sobre baldes e mangues em Macau-RN, 2007, Getulio Moura

Lua sobre baldes e mangues em Macau-RN, 2007, Getulio Moura

Morasse eu no sertão longe de luzes, já teria percebido de há muito que era sempre na lua cheia que Veneranda não trepava. Quando a bicha começava a ganhar corpo no céu de pedaços, visto entremeio prédios e antenas, dava-lhe um passamento, ficava cismarenta, lhe doía os lombos, o pé da barriga, o dedo mindinho e sua perseguida entrava em greve, geral e irrestrita. E nem chegasse perto, pois mal humorada, Veneranda, mulher cordata era capaz de lhe dar um bofete, coisa que não faria nunca longe dos enquadramentos da lua cheia.

Agora, chegado em tempo de reflexão, longe de antenas, prédios e falsas luzes, vendo a lua livre sobre mar e mangues pensei naqueles ocorridos com Veneranda. Se antes a condenava como mulher insensível, bruta e estranha, agora a absolvo. Veneranda não tinha culpa, pois sendo natureza, se culpa houvesse era da natureza. A lua cheia sugava sua libido e a deixava prostrada.

É preciso ficar velho para entender as coisas desse mundo. Eu que fui educado, formado, informado e formatado para acreditar sempre que o homem é cria de Deus com todos os adereços de imagem e semelhança e tal, sempre considerei que não tinha nada a ver com a natureza, com os pés no chão, mas sim com o “mundo lá fora”, dos espíritos e etc. Grande pecado, pois esqueci por completo as lições de mamãe, mulher sábia e carinhosa a me alertar que  não batesse no pé de manga, não lhe atirasse pedra, lhe desse água e adubo, pois ele era igual gente. Pois o que somos, natureza. Quando menino acreditava, mas depois saí pelo mundo e fui engolido pelas falsas luzes.  

 

De Claudio Guerra para o baú de Macau

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