Memória mítica do jagunço Chico de Barros

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MEMÓRIA MÍTICA DO JAGUNÇO CHICO DE BARROS

Horácio Paiva.

E-mail: horacio_oliveira@uol.com.br

“Era sábado.

O amplo Quadro do Mercado,

onde ocorria as feiras,

desde cedo estava sob a ternura

do terral,

vindo das Imburanas,

cheirando a verde dos velames,

ou trescalando a sumo do amarelo

perrexil.”

Assim começa, o poeta Gilberto Avelino, o seu poema “Balada às Feiras Antigas de Macau”. Assim começavam as fartas e exuberantes feiras de Macau de antigamente, na primeira metade do século XX, registradas na memória lírica do poeta, e a que acorriam os povos vizinhos, do verde vale do Assu, do então distrito de Pendências, dos povoados de Bamburral, Alto do Rodrigues, Quixaba, Maxixe, Mangue Seco, Tabatinga, Ponciana, Pedrinhas, Porto do Carão, Estreito, Canto Grande, e mesmo de Carapebas e Epitácio Pessoa (hoje, Afonso Bezerra e Pedro Avelino).

De minha infância, guardo os reflexos líricos dessas feiras, sobretudo nas lembranças, doces, dos alfenins, do mel dos capuxus, dos pequenos juás, ou na emoção dos acordes das velhas rabecas dos cantadores de cordel, que, como os antigos aedos gregos, percorriam as cidades dos sertões, cantando as sagas de heróis populares, fictícios ou não, de uma memória quase perdida no tempo. Empolgavam-me, dentre tantos, o “Romance do Pavão Misterioso”, “A Prisão de Oliveiros”, “A Morte dos Doze Pares de França”, “A Vida de Cancão de Fogo e o seu Testamento”, “A Chegada de Lampião no Inferno”, “O Cachorro dos Mortos”, “História da Donzela Teodora”, “O Verdadeiro Romance do Herói João de Calais”, “Roldão no Leão de Ouro”, “A Força do Amor ou Alonso e Marina”. Neste último título, o início é maravilhoso:

“Nestes versos eu descrevo

a força que o amor tem

que ninguém pode dizer

que não há de querer bem

o amor é como a morte

que não separa ninguém.”

Certamente às feiras de Macau não aportavam apenas os feirantes e os cantadores de viola, mas outros inúmeros tipos inesquecíveis: sabidos prestidigitadores (Tributino foi um deles, e o mais famoso), bêbedos, vagabundos, valentões, e

“a polícia

ainda rondava

com seus facões rabo de galo”.

Guardo a história de um desses valentões, que ouvi ainda criança, contada pelo meu avô, José Horácio de Oliveira Góes. Trata-se de Chico de Barros (Francisco Bezerra de Barros), desregrado valentão, natural do Vale do Assu. Freqüentava as feiras da região, onde bebia, brigava, fazia arruaças. Fomentador de pequenos e grandes “causos”. A polícia de então, pequena e mal formada, tinha-lhe medo. E, nos enfrentamentos, à base dos facões “rabo de galo”, não se saía muito bem. É que o jagunço, além de valente e hábil nas lutas, nem sempre andava sozinho, mas, por vezes, acompanhado de “aprendizes” de cangaceiro.

Manoel Rodrigues de Melo assim o descreveu: “Alto, forte, corpulento, trajando mescla azul, andava invariavelmente a cavalo pelos sambas e forrós da redondeza. Simples, maneiroso, delicado, amava o perigo por força de vocação irresistível. A vida fácil e diletante que levava, andando para cima e para baixo, sem profissão definida, jogando, brigando nas feiras e nas festas, fê-lo expoente máximo da curiosidade popular, admirado, odiado, sem perder, contudo, o élan de autêntico valentão da redondeza.” (In “Várzea do Açu – Paisagem, Tipos e Costumes” – 3ª. ed. – IBRASA/MEC – 1979).

Em certo dia de 1926, deu-se a virada fatal na vida de Chico de Barros. Numa das feiras de Macau, engraçara-se de uma jovem de Tabatinga (hoje município de Alto do Rodrigues), onde também nascera. Tentou abordá-la, mas foi repudiado. Seguiu-se a ameaça violenta: iria vê-la em sua própria casa, e, se lhe resistisse, apanharia de virola. Alguns circunstantes ainda tentaram dissuadi-lo, acalmando-o, dizendo-lhe que a jovem era moça direita, que morava com o avô, homem sério e correto. Qual o quê! A resposta do bandido foi pronta e grosseira: daria, de rebenque, antes do final daquele mesmo dia, na neta e no avô. E, em seguida, como em comemoração antecipada do sucesso macabro da empreitada, entre galhofas e risos, foi tomar umas talagadas de cana com um de seus aprendizes que o acompanhavam.

Longe da violência e da bizarria, do outro lado do mercado, alguém cantarolava a toada popular:

“Menina bonita

quando eu for te levo

para a estrada nova

pra linha de ferro.

Quando eu piso, piso

no chiado da botina

minha mãe me dá dinheiro

pra roubar essa menina.”

O avô da moça, no entanto, logo fora avisado. E não fez outra coisa, naquele dia, que esperar o bandido em sua casa. Mas esperá-lo já de arma na mão. Com o seu rifle “papo amarelo”, como são conhecidos entre nós os Winchesters, ficou longo tempo postado, silencioso, pensativo, mas atento, atrás de uma das janelas de sua casa. À tardinha, antes do pôr-do-sol, ouviu o reboliço dos cavalos: eram o jagunço e seu acompanhante que chegavam. Ao vê-lo de arma em punho e já pronto a atirar, o aprendiz de cangaceiro, mesmo surpreso, querendo mostrar-se valente ao seu mestre, toma-lhe a frente. Tudo se deu muito rápido. Não chegaram sequer a desmontar. O velho avisa-lhe, peremptório: “Saia do meio ou morre também!” E o aprendiz de cangaceiro, abaixando-se na sela, foge em disparada. E o tiro mortal atinge Chico de Barros, derrubando-o do cavalo. Um único tiro fora suficiente para pôr termo à vida do valentão Chico de Barros!

Cheguei a ouvir uma outra versão da morte de Chico de Barros, sem a riqueza dramática da original. O velho apanhara do bandido, e o matara, posteriormente, em uma emboscada, num carnaubal no caminho de Tabatinga. E não fora com o Winchester, mas com um clavinote. Pode ter sido.Adoto, porém, a versão que ouvi, ainda criança, de meu avô. Pelo que há de encanto lendário. Assim, posso repetir, como aquele personagem do filme de Ford, em “O Homem que Matou o Facínora”: Aqui no Oeste, quando a lenda for superior à realidade, imprima-se a lenda!”.

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