Vamos ganhar dinheiro? – parte 2 – A Corrente Milionária

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O carro de feno. H. Bosch [1450/1516]

O carro de feno. H. Bosch [1450/1516]

Era 1966 e eu tinha 16 anos. Trabalhava num escritório, espanava, varria, apanhava talões fiscais e pagava guias na Coletoria e o meu sonho era ascender para escriturário até o dia que chegou Cezão com a novidade de que ficaria milionário em pouco tempo. Correram todos para sua escrivaninha e o cercaram. Fui também e só Aristides, no fundo do escritório não foi.  E então Cezão, professoral explanou como todos ficariam milionários. Era alguma coisa assim de uma lista com nomes e você colocava o seu nome e endereço e mandaria um cheque via Correio para o primeiro da lista e em pouco tempo choveria no seu endereço cheques a seu favor.  Sofri muito nesse dia de frustração, pois a corrente era proibida para menores e mais a mais não tinha conta em banco. E nessa tarde, eu triste, com a vassoura na mão vi sair pela porta do escritório os futuros milionários e entre eles, Cezão e Lazinho numa conversa animada sobre como gastariam os milhões que ganhariam em pouco tempo.  Para mim restava o consolo que me dera Cezão de me contratar como escriturário na sua empresa que abriria tão logo ficasse milionário.

Passou o tempo, algum tempo e Lazinho recebeu dois cheques. Recuperou o dinheiro e ganhou algum, pouco, mas ganhou. E tudo parou por aí. Não veio nada para Cezão e nem para os outros colegas do escritório. O clima ficou tenso e frustrante e havia reunião todos os dias depois do expediente sobre as possíveis causas do problema. Tudo seguia assim até que o Aristides se meteu na conversa. Era calado e fazia as escriturações mais complicadas e na hora da limpeza, sempre me pedia para esperar e ficava por muito tempo absorto olhando para o nada. E então, um dia veio o Aristides com papel e caneta e nos mostrou que a corrente esbarrava numa questão simples: o número finito de habitantes do mundo.  

Bem, eu recordo esse fato no momento que vejo surgir um grande número de “empresas” com esse mesmo engodo, estas arapucas criadas no capitalismo. Apelo a todos e especialmente aos cristãos para não fugirmos do castigo divino de conseguir o nosso pão com o suor do nosso rosto. Trabalhemos, enfim.

De Claudio Guerra para o baú de Macau

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