Venâncio Zacarias de Araújo,

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Venâncio Zacarias de Araújo – Sua história, eleição, posse, e sucessão na Prefeitura de Macau – 1938/1962 [ *]

Venancio Zacarias de Araujo Foto da plaquete Prefeitos de Macau 1930-1996 de Helder MarquesVenâncio, um líder nato. Trabalhador rural até 1938. Acometido de malária com a família, no Vale do Açu, veio para Macau, buscando saúde e vida. Restaurado, foi trabalhar na Salina Julião da Cia. Comércio e Navegação, ora Salinor – Salinas do Nordeste S/A.

No trabalho, juntou 703 operários, momento em que fundou a Associação Profissional dos Trabalhadores em Salinas, dia 30/08/1938. Na frente da entidade passou a ser perseguido pela empresa salineira, que através de capangas armados não o deixava nem pescar nas camboas adjacentes tidas como limites da empregadora.

Ano de 1943, obteve o registro da Associação na Delegacia Regional do Trabalho/DRT. Em privações insuportáveis com a família, sem poder trabalhar, fez inscrição no SENTA – Serviço Nacional de Trabalhadores para o Amazonas. Aí liderando Turmas de Trabalhadores rumou ao “Inferno Verde”, onde foi seringueiro/lenhador em Manacapuru, estado do Pará, no Desterro, fazenda/seringais do paraibano de origem – Sr Manoel Saraiva, durante mais de dois anos. A duras penas conseguiu que o Interventor Federal lhe desse garantias de segurança até embarcar no vapor que o traria para o Nordeste, e tudo assim para que não fosse morto pelos sicários do citado seringalista escravizador de seringueiros que operavam em suas propriedades, desde que lhe pedissem as contas e, com estas, roubados, protestassem. Esse era o regime de escravidão que reinava no fabuloso Amazonas.

Chegado a Macau, Venâncio retomou a luta sindical, sem temer os arreganhos de violência da mega empresa salineira. Demandou mais 5 anos, até que a 31/08/1948, conseguiu ato do Ministro do Trabalho, desligando sua base sindical [Município de Macau], do STI da Extração de Sal no Estado do Rio Grande do Norte, com sede em Mossoró.

Teve sua Associação Profissional transformada em STI da Extração do Sal, de Macau, por ato do Ministro do Trabalho, Honório Monteiro, datado de 11/11/1948. O evento consagrou a batalha de 10 anos travada no campo sindical, e aí liderou os trabalhadores salineiros até 1957, quando decidiu disputar a Prefeitura de Macau. De logo buscou entendimentos com os trabalhadores marítimos, portuários e pescadores, comerciantes e comerciários; aglutinou a vontade política da comunidade, e foi à grande luta eleitoral para conquistar a Prefeitura, sendo consagrado nas urnas com 468 votos de maioria sobre seu opositor, tendo, pois, o voto em massa do eleitorado. Na refrega derrubou a oligarquia melo-varelista que dominava fazia 23 anos.

A histórica caminhada eleitoral, na verve do povo, recebeu sinete de “Luta dos Molambudos”. Na eleição foi eleito Vice-Prefeito, Horácio de Oliveira Neto, que tinha história de vida em colisão com os interesses éticos e políticos do proletariado organizado desde os idos de 1935.

Estive ombro a ombro com a chapa liderada por Venâncio, porque precisava resguardar minha condição moral e política de filho amigo, e dos trabalhadores, conscientemente reconhecido de suas memoráveis qualidades de caráter, firmeza e lealdade de classe.

Eleita a chapa liderada por Venâncio, infelizmente, minhas previsões aconteceram. O Vice, antes de empossar na elevada função que o povo lhe outorgara, nos estaleiros do Matarazo/Cia Comércio e Navegação, já tramava abertamente contra a posse do Prefeito eleito, em seu favor. Absurdo dos absurdos. Não conseguiu o impossível. Venâncio tomou posse sob os aplausos da cidade. Mas o Vice não mais cruzou os braços contra o governo dos trabalhadores. Esteve praticamente 4 anos na condição de presidente do Poder Legislativo, – Legislação da época, – sem permitir que a Câmara Municipal apreciasse as Contas do Executivo. Até que chegou a campanha sucessória municipal, momento que friamente exigiu do Prefeito Venâncio ser o candidato á sua sucessão.

Sem digerir tal postura política do Presidente da Câmara, revoltado organizei outra chapa, Zacarias Francisco Rodrigues x Ivo Ferreira dos Santos, respectivamente Prefeito e Vice, aquele líder sindical dos Marítimos, este estudante de Direito, vocacionado ás lutas sociais do povo. Aconteceu basicamente o esperado: perdemos a campanha par o oligarca Albino Gonçalves de Melo, já Ex-Prefeito, mas gozamos, derrotamos a candidatura do candidato imposto ao prefeito do povo do trabalho, simplesmente por 179 votos.

Isto posto, aí a razão nua e crua pela qual o prefeito Venâncio Zacarias de Araújo, não fez, foi impossível fazer seu sucessor na Prefeitura.

 

Páginas 107 e 108 – Minhas Tamataranas: linhas amarelas – memórias, de Floriano Bezerra de Araújo, Sebo Vermelho edições, Natal-RN,  2009

 

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