Ainda a Guerra da Coréia de Benito Barros: Memória de cabaré: do lupanar de Pompéia na Itália ao Mata Sete de Macau

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Conde Pereira Carneiro arq Benito 2Do Professor e Escritor Natanael Sarmento, desde o Recife, recebemos com alegria o texto Memória de cabaré: do lupanar de Pompéia na Itália ao Mata Sete de Macau. O Professor nos traz além os ensinamentos da história desde tempos remotos até o prosaico Mata Sete de Macau, que sempre povoou os sonhos dos adolescentes macauenses. Honrado, recebo o texto de bela narrativa que compartilho com os leitores do baú de Macau.

Visitei, recentemente, a casa do embaixador Getúlio Vargas Maia Barros no bairro do Rosarinho em Recife e além de desfrutar sua agradável companhia ainda ganhei dois presentes memoráveis, uma garrafa de cachaça e um livro. O senhor embaixador tem em casa uma das mais completas coleções particulares da água da vida. O livreto foi A Guerra da Coreia de Macau, de Benito Barros, editado pelo baú de Macau em 2912.

Dei boas risadas com a narrativa do movimento paredista das damas do cabaré das Quatro Bocas ameaçadas de despejo pelo Major Aproniano. Parecia ver e ouvir o próprio Benito em pessoa, narrar o episódio com seu jeito peculiar de denunciar e ironizar os abusos de poder e as injustiças humanas.

Com fundamentos em bases teóricas e lastrado em décadas de pesquisas de campo, podemos afirmar, sem medo de cometer equívoco, que a dramaturgia da Guerra da Coreia das mariposas noturnas de Macau nada deve a obras clássicas do teatro grego.

Ora, quatrocentos anos antes de Cristo, Aristófanes imortalizou a ateniense Lisístrata na comédia Guerra dos Sexos. Nessa trama, a mulher lidera a revolta feminina com o lema: Enquanto houver guerra, nada de sexo!  As mulheres atenienses, privadas de qualquer participação na vida da polis, utilizaram a arma da sonegação, da abstenção, da omissão, não cruzaram os braços, mas as pernas, e assim, forçaram seus belicosos maridos guerreiros a celebrarem o acordo de paz.  Com claras vantagens para todos.

Em Pompéia, a célebre cidade italiana destruída pelo vulcão, comoveram-me as estátuas humanas e o realismo da sinistra erupção, a vida petrificada. O meu estado depressivo só desapareceu diante de um lupanar de mais de dois mil anos, eis um estabelecimento precursor da Maria Boa em Natal, do Mata Sete em Macau, do Bataclan em Ilhéus, e de tantos outros.  Praticidade e arte são atributos que não faltaram aos romanos, sem quais não dominaram o mundo antigo. Com o escopo de facilitar as negociações entre os contratantes e as contratadas dos serviços do lupanar – mercadores, marinheiros, romeiros, povos estrangeiros a falar diferentes línguas – o belíssimo painel de afrescos com as diversas posições do congresso sexual a fazer inveja à edição ilustrada do Kama Sutra. O contratante, simplesmente, apontava à ilustração escolhida, e definida o objeto principal do negócio o mais era secundário.

No ano de 2001, a liberiana Leymah Gbawe – depois, receberia o Prêmio Nobel da Paz – lidera uma greve dos sexos a lembrar a  Lisístrata da comédia de Aristófenes. A heroína da vida real desencadeia um movimento absenteísta ecumênico ao convocar as muçulmanas, cristãs, xintoístas, budistas, enfim,  mulheres de todos os credos, a não cederem aos seus maridos os prazeres da carne enquanto não cessasse a guerra civil que devastava o país africano. Nem a pressão das Nações Unidas surtiu tanto efeito.

A temática da Guerra da Coreia, de Macau, de Benito Barros já foi visitada  por penas imortais da literatura universal hodierna. Dois premiados com o Nobel de literatura, pelo menos. E um injustiçado, que devia receber o prêmio, mas não recebeu apesar de Deus ser brasileiro, a academia é sueca. O colombiano Gabriel Garcia Marques escreveu a Memória de Minhas Putas Tristes. Quem diria, o Gabo dos Cem Anos de Solidão terminou no Mata Sete. O peruano Jorge Mário Vargas Llhosa forma um exército de visitadoras sob o comando do brioso Pantaleão. O brasileiro guerreiro Jorge nosso muito Amado escritor, em Tereza Batista Cansada de Guerra, retomaria a temática, e nos leva às gargalhadas na famosa “greve do xibiu fechado”.

Para dar por findos os trâmites, registrarei um episódio ocorrido no país de Macau lá pelos anos 68,69. Dedico-a ao  confrade Cláudio Guerra, esse escriba talentoso que se esmera em garimpar  os mais ínfimos fragmentos da memória da cidade onde faz vezes de sentinela avançada da literatura e da cultura.

Contava dezesseis anos, talvez dezessete, sendo ciceroneado em Macau pelo então amigo Chico Paraíba, que fora morar em Natal. Esse tipo social apresentou-me aos seus amigos e a cidade de Macau, o mercado público, os bares, o prostíbulo. Lembro-me do bar de Abel, do “café fraco de Pacheco”, das músicas de Odair José, Nelson Gonçalves, Nélson Ned e de outros sucessos, que embalavam as rodadas de cachaça – eu enrolava mais do que bebia, mas precisava me afirmar como adulto e macho. Numa noite visitamos o cabaré das putas pobres da cidade, o Mata Sete. Zona proibida. Lugar dos pecados. Saímos a pé da praça conduzidos pelo anfitrião e pelos novos companheiros. O Chico Paraíba, zeloso anfitrião, aconselhou: “não mexa com mulher acompanhada!”, “não encare mulher com macho”, “não tire mulher sentada em mesa com alguém para dançar” “não discuta nem por cem que aqui a coisa se resolve  na faca!”. Lembranças vagas do lugar, uma rua escura, sem calçamento, com forte olor dos sítios desprovidos de saneamento básico. Casinhas pobres, pobres homens e pobres mulheres entrelaçados na solidão minorada pelo sexo fugaz e pago. Entramos  numa casa e na pequena sala um sanfoneiro se esfalfava, nós ficamos encostados à parede para não atrapalhar a contradança, tão pequeno o espaço. Admirávamos o lugar, não se pode dizer que com olhar acadêmico antropológico que naquele tempo nem sabíamos, mas nem a nossa juventude se estimulava a alguma outra aventura além do olhar, tal a degradação das mulheres em exibição. Eis que de repente adentra o local os homens da lei, três ou quatro soldados da polícia, em fila indiana, sob o comando de certo “Cabo China”. A patrulha passa em revista todos os presentes, apalpa, manda esvaziar os bolsos. Eu carregava um pente de osso em forma de navalha, parecia navalha, mas no lugar da lâmina, um pente. Abri e mostrei isso ao Cabo. Essa autoridade policial gostou do pente e o confiscou, cinicamente, colocando-o próprio bolso e me encarando.  Quis protestar. Mas o Chico Paraíba, a quem devo a integridade física,  interveio  “Deixa isso prá lá, você tá doido, quer arranjar confusão?”. Em Roma como os romanos. Estávamos em plena ditadura militar no Brasil. Imagine o poder do cabo de polícia no cabaré de Macau durante a ditadura.

Natanael Sarmento

Leia mais sobre o autor: http://www.obaudemacau.com/?s=Natanael+Sarmento

 

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