Inquietudes do homem e a filosofia

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por-que-estudar-filosofiaExplicar a questão sobre o mistério da origem de todas as coisas tem sido uma inquietude contínua ao pensamento humano desde tempos muito remotos. Toca profundamente o homem porque a dúvida, ou a carência de credulidade em uma verdade plena e absoluta, permanece uma insistência eterna no nosso imaginário.

A projeção imaginativa, porém, para alimento de nossa curiosidade insatisfeita, liberta-nos da fatídica condição de transitoriedade e nos permite alcançar novos horizontes sobre tais questões existenciais. Por exemplo, o mito, discurso fabuloso incansavelmente repetido no cenário grego antigo, apoiava-se na compreensão da realidade e de sua origem por meio de uma linguagem metafórica que guarda profundo significado alegórico, atribuindo narrativas das mais diversas e imagináveis. Como diria Pessoa, O mytho é o nada que é tudo, afinal, ainda que se configure como ideia falsa, o mito é a possibilidade de tudo ser porque tudo aceita no desafio de contar a história sobre a origem das coisas.

No entanto, tal não é o comportamento da ação filosófica, na medida em que a Filosofia nem tudo aceita como explicação e isso, talvez, se constitua como o ponto primordial de contraposição que a Filosofia carrega a respeito do mito: uma linguagem despretensiosa que está, ao mesmo tempo, preocupada em voltar o seu olhar atento para a realidade da physis e, a partir dela, hipotetizar sobre o que é, distinguindo o que pode ou não ser. Ao conceber explicações sobre o problema da existência e seu ponto originário, o discurso filosófico não permite toda e qualquer proposição, muito menos se vale de uma linguagem fabulosa para estabelecer sua hipótese. Ao contrário, a Filosofia nasce justamente do encontro entre a fuga da interpretação do imaginário cosmogônico e a liberdade para refletir os fenômenos da realidade sem a pretensão científica de pensar a verdade de suas proposições.

Mas de onde, então, tem suas raízes essa nova forma de apresentar a realidade e de dizê-la? Há certas coisas que só começamos a perceber quando nos dispusemos a remontar às fontes e Nietzsche, ao remontar o cenário filosófico em maturação, encontra na Grécia Antiga o possível salto filosófico. Para ele, este salto parece ter se realizado pela primeira vez com a proposição aparentemente absurda de Tales de Mileto, segundo a qual a água é a essência e o elemento responsável pela origem de todas as coisas.

Bem, e no que isso se diferencia do mito ou da mera investigação da natureza? A razão, o filósofo explica, foi o esforço intuitivo de Tales para exprimir a realidade por meio de uma universalização do pensamento. Para além de uma hipótese científica ou fantasiosa, Nietzsche enxergou com a asserção de que “tudo é água” uma tentativa de perceber a realidade como um Todo, isto é, Tales deu o primeiro salto filosófico ao compreender que a essência e a verdade da realidade advêm de um ponto único, cuja relação se faz pelo enlace entre o universal e o singular: Tudo é Um.

A provável sentença proferida por Tales, hoje, pode até não ser de peso ou irrefutável, mas é sem dúvida uma consideração que deve ser recebida como pertinente se tomarmos a análise de Nietzsche sobre o surgimento da questão filosófica. O filósofo alemão observa que, em todos os tempos, o pensamento filosófico se concretiza na tentativa de ser seta em busca de um alvo indisfarçavelmente provocador e que se encontra num sítio muito além das cercas da experiência. A hipótese filosófica, portanto, é provável na medida em que o seu vagar habitual acerta intuitivamente o seu alvo provocador. Como isso acontece? Pela fantasia, mas não somente por ela. Nietzsche esclarece que ela ergue as possíveis hipóteses, tendo o crivo da reflexão o papel de tornar possível a análise sobre seus critérios, acenando para as certezas demonstráveis. E, ainda que não se torne nunca demonstrável, a hipótese filosófica de Tales teria o seu valor, pois é livre! Guarda em si a liberdade para pensar fugindo do pensamento puramente racional e das alucinações poéticas do pensamento puramente místico.

Nesse céu enfim liberto que é a Filosofia, Tales é visto por Nietzsche como um “mestre criador”. Criador porque inova a percepção sobre a realidade ao observá-la como uma totalidade, em si e para si, e mestre porque, como todo filósofo por excelência, buscou discernir quais as questões que são, de fato, relevantes de serem conhecidas nesse nosso tempo de passagem.

[*]Clarissa Guerra é aluna de Filosofia de UFRN

 

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