Bichos da Noite, de Marcio de Mello

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Bichos da noite – XIV – páginas 118/119, de Marcio de Mello. Da obra: Uma história de outro mundo e outras histórias de bichos que não navegaram na Arca de Noé.

E.Valle, 1937, Rua São Vicente em Macau-RN

E.Valle, 1937, Rua São Vicente em Macau-RN

O Bar do Marcolino ficou famoso pela sopa que servia, O Caldo de Marcolino. O fogão com panela fumegante ficava bem à vista dos fregueses. De forma curiosa, acima da mesma, pendia um osso de mocotó amarrado por um barbante, descia por uma roldana fixada no caibro da coberta com o final amarrado num prego na parede.

Quando o freguês pedia uma cana e um caldo, a bebida era retirada de um filtro de barro. O caldo, porém, possuía um ritual: ao destampar a panela, soltava o barbante e o osso era imerso por três vezes na sopa. Só para dar o gosto.

Na sexta-feira, o movimento era bom. A turma estava reunida. O assunto era sobre a festa que não tinham sido convidados.

Eu até descolei um convite, mas é coisa de grã-fino prefiro aqui. Meu pai foi, é coisa pra velho. Acho que vocês estão despeitados. Eu mesmo, só lamento não ter ido ver a viúva. A bicha é gostosa, dizem que depois que enviuvou nunca mais, ó! Pelo tempo deve ter teia de aranha. Duvido, ela só vive se confessando deve ter muito pecado. Esse padre não me engana, ele não tem nada de leso.

Ouvi alguém falar no padre? Seu vigário, por aqui a essa hora? O senhor não morre mais, acabamos de falar no senhor. Bem ou mal? O que o senhor acha? Claro que foi de bem. Comentávamos sobre a festa e alguém disse que o senhor estava lá. Eu disse que passaria por aqui, mas já estou de partida, amanhã cedo tenho muito que fazer. Não vai nem tomar  um copo? Não, estou com  pressa, boa noite e fiquem com Deus.

Boa noite.

Em noite como aquela as luzes estavam acesas no local das festividades, o restante da cidade permanecia no escuro.  O silêncio era quebrado pela orquestra e pelos atabaques anunciando que no terreiro também havia festa.

Os dois ritmos mexiam com os que dançavam, um dolente e romântico, o outro transmitia um frenesi a percorrer o corpo dos que seguiam ou não a prática de seus rituais.

A orquestra parou. Eram quase duas horas da manhã, o som dos tambores ficou mais claro, invadia as casas da cidade. As pessoas sentiam repercutir o som dentro da propria cabeça e do corpo, mesmo estando longe do local onde  eram tocados. A cidade não dormia. Como se estivesse esperando a chegada de alguém ou de alguma coisa.

O batuque foi ficando mais rápido e mais alto e mais alto e mais alto, parou. O silêncio incomodava. Nos ouvidos  ficou um zumbido.  Logo depois um rinchar, e um galopar, seguidos dum piar agudo, agourento, e de um longo uivo, ecoando madrugada adentro.

A cidade ouve. Treme. Na casa do prefeito, do  vice, do delegado, do promotor, do médico e na casa paroquial a apreensão toma conta dos familiares. Esse ilustres cidadãos ainda não regressaram da festa.

O barulho percorria as ruas como procurasse alguém,  de tempo em tempo silenciava, daí a pouco, recomeçava no mesmo diapasão. Era um chamado, um  apelo. Só não se sabia a quem.

 

 

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