Fernando Pessoa no Encontro com a poesia [1]

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ENCONTRO COM A POESIA

 

                                                           (Por Horácio Paiva)

 

            Esta, uma antologia sem pretensões. Aliás, a única pretensão é minha em catalogar poemas através dos quais mantenho, há muitos anos, diálogo permanente com o mistério existencial.

            Também não houve “rigor” na seleção, se considerarmos a palavra em sua ortodoxia crítica radical. Diria antes que o agrado, o amor, a cumplicidade com tais poemas, mantida através dos tempos, e, muitas vezes, o êxtase contemplativo, guiaram as minhas escolhas. “Melhor”, “pior”… estive longe dessas comparações. O momento os definiu. E certas circunstâncias vitais os tornaram inseparáveis amigos meus.

            Fernando Pessoa (Fernando Antônio Nogueira Pessoa), grande poeta português, que poderia situar-se no começo, no meio ou no fim deste trabalho (da mesma forma que aparece em meus ciclos vivenciais de leitura), encabeça a lista. Meu primeiro (e maravilhoso) contato com ele deu-se em fins da década de 1950, através de meu querido irmão Daltro de Paiva Oliveira, já falecido, seu ardoroso admirador.

            Li-o, depois, numa antologia publicada sob a direção de Alceu Amoroso Lima, Roberto Alvim Correa e Jorge de Sena, intitulada “Nossos Clássicos”, da antiga editora Agir. Fora também escolhido para o volume 1 da mencionada coletânea, com apresentação, seleção e notas de Adolfo Casais Monteiro. Um pouco mais tarde, adquiri as suas obras completas.

 

FERNANDO PESSOA (n. 13/06/1888, Lisboa; m. 30/11/1935, Lisboa):

F Pessoa sobre imagem da capa de Vlad Camargo  Livro do Desassossego Editora de Unicamp 1996

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ó NAUS FELIZES, QUE DO MAR VAGO

 

Ó naus felizes, que do mar vago

Volveis enfim ao silêncio do porto

Depois de tanto noturno mal 

– Meu coração é um morto lago,

E à margem triste do lago morto

Sonha um castelo medieval…

 

E nesse, onde sonha, castelo triste,

Nem sabe saber a, de mãos formosas

Sem gesto ou cor, triste castelã

Que um porto além rumoroso existe,

Donde as naus negras e silenciosas

Se partem quando é no mar manhã…

 

Nem sequer sabe que há o, onde sonha,

Castelo triste… Seu espírito monge

Para nada externo é perto e real…

E enquanto ela assim se esquece, tristonha,

Regressam, velas no mar ao longe,

As naus ao porto medieval…

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