Encontro com a poesia: San Juan de la Cruz

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ENCONTRO COM A POESIA: SAN JUAN DE LA CRUZ

                                                                        (Por Horácio Paiva)

 

Alba de Tormes, Iglesia de San Juan de la Cruz, Salamanca. Espanha

Alba de Tormes, Iglesia de San Juan de la Cruz, Salamanca. Espanha

            A Beleza é irmã da Verdade. Nada melhor para exemplificá-lo é esse belo e verdadeiro poema de San Juan de la Cruz, poeta e santo espanhol, doutor místico da Igreja Católica, nascido Juan de Yepes. Monge, da Ordem dos Carmelitas (dos Descalços, que procuravam cumprir maior expressão de pobreza e desprendimento), adotou o nome de Juan de la Cruz.             A alma encontra em Deus a união perfeita: a Verdade (e nela, a salvação e a beleza), que se opõe às ilusões do mundo secular e material. Não há dúvidas que a beleza, na harmonia de seus aspectos intrínsecos e extrínsecos, é irmã da Verdade, o exato, o perfeito. E na noite escura da alma, no caminho que leva ao Amado, a Amada é guiada pela luz da certeza, mais clara que a luz do meio-dia…  

 

SAN JUAN DE LA CRUZ (n. 1542, pueblo de Fontiveros, Ávila; m. 1591, Ubeda):San Juan de la Cruz

 

 

                        NOITE ESCURA

  

             Em uma noite escura,

com ânsias, em amores inflamada,

oh ditosa ventura!,

saí sem ser notada,

estando já minha casa sossegada;

 

 

            às escuras e segura

pela secreta escada, disfarçada,

oh ditosa ventura!,

às escuras e cuidada,

estando já minha casa sossegada;

 

 

            nessa noite ditosa,

em segredo, quando já ninguém me via

e de nada ver desejosa,

sem outra luz e guia

somente a que no coração ardia.

 

 

            Aquela me guiava

mais certo que a luz do meio-dia

aonde me esperava

quem eu bem o sabia

a parte onde ninguém aparecia.

 

 

            Oh noite que guiaste!,

oh noite amável, mais que a alvorada,

oh noite que juntaste

amado com amada,

amada no amado transformada!

 

 

            Em meu peito florido,

que inteiro para ele só se guardava,

ali quedou dormido,

e eu o admirava,

e o leque de cedros arejava.

 

            O vento da ameia,

quando eu seus cabelos espargia,

com a sua mão serena

o meu colo feria

e todos meus sentidos suspendia.

 

            Quedei-me e olvidei-me,

o rosto reclinei sobre o Amado,

cessou tudo e deixei-me,

deixando meus cuidados

entre as açucenas olvidado

 

  

(Tradução de Horácio Paiva, dedicada à memória do amigo Carlos Freire, em 11/4/2013, data de seu falecimento)

 

 

                          

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